Escreva, Paloma, Escreva

19 nov

32996990_xlDSEO8f_c_largeMinha melhor matéria nos tempos de escola sempre foi redação. Até mesmo quando me tornei uma adolescente meio desajustada e deixei de ser a excelente aluna que sempre fui até os 13, 14 anos. As notas de exatas foram para o fundo de um poço sem fundo. As de humanas caíram de ótimas para boas mas, em redação, eu continuava sendo uma das melhores da classe, de todas as classes por onde passei.

Por isso, no momento da fatídica decisão pré-vestibular, escolhi jornalismo. Se conhecesse melhor o mercado e se naquela época, início dos anos 2000, soubesse o que esse mercado se tornaria com a chegada da internet (isso é assunto para outro post), provavelmente teria escolhido outra coisa. Quem sabe letras. Ou música. Ou outra coisa. Não sei.

Fato é que eu gostava de escrever. Escrevia sem obrigação nas minhas agendas sempre cheias de palavras, listas, códigos e colagens. Escrevia nos papéis de carta, coloridos e cheirosos, que deviam ser guardados intactos nas pastas de colecionadora. Escrevia em folhas de papel ofício e sonhava em ter uma máquina de escrever. Só tive uma de brinquedo. Nunca uma de verdade.

Escrever me ajudava a organizar os pensamentos, sempre abundantes e descontrolados. Me acalmava, relaxava. Era “a minha coisa”, o meu talento, o meu prazer.

Um dia, às vésperas de sair de Salvador e mudar para São Paulo, pedi que meu pai desenhasse algo para que eu tatuasse, algo que o fizesse lembrar de mim, que ele achasse minha cara. Pela primeira vez ele concordou (a primeira tatuagem, feita aos 15 anos, não foi bem aceita). E ele desenhou, sem me contar antecipadamente o que seria, uma pena de escrita. Tatuei a pena no antebraço esquerdo, próxima a minha mão esquerda. Sou canhota.

Com o passar dos anos continuei escrevendo, profissionalmente e pessoalmente. No jornalismo, exigia-se que a escrita, cada vez mais, fosse rápida, curta, concisa. Na minha minha vida, ela servia como a válvula de escape de sempre mas, dessa vez, compartilhada com quem quisesse ler.

E entre elogios, críticas, gentilezas e ataques fui me tornando medrosa. Insegura sobre até onde deveria me expôr, sobre a qualidade dos meus textos, sobre a recepção daquilo por quem me conhecia bem e por quem não fazia ideia de quem eu era (sou). Me senti triste por julgamentos e pela falta deles, por quem sequer tinha interesse em saber o que eu havia dito ali. E me julguei, como sempre, da maneira mais cruel do que qualquer outra pessoa poderia fazer.

Aos poucos fui perdendo o prazer. Continuava pensando em forma de escrita, como faço desde que aprendi a escrever. Muitas vezes meus pensamentos  vêm em formato de frases combinadas em parágrafos. Mudo palavras e procuro sinônimos para evitar repetições, e vez ou outro abuso dessas tais repetições. Busco a beleza na construção linguística. É como um jogo, uma dança, uma música. Meu jogo, minha dança, minha música. Algo que eu sempre soube fazer.

Não sei exatamente onde me perdi. Acho que foi um processo longo, numa combinação de diversos fatores, diversas experiências, neuroses e impaciências. Sei menos ainda como me achar, resgatar, recuperar. 

Só sei que nesse momento de questionamentos profundos sobre meu lugar no mundo, sinto falta do meu eu que sonhava em ser escritora e corria para o caderno, agenda, guardanapo ou frente do computador sempre que podia e se orgulhava disso; não necessariamente do resultado final da combinação de palavras, mas sim de ter uma grande paixão que dependia única e exclusivamente de mim.

A culpa é da “periguete”

26 out

Falando em sororidade no texto anterior, me peguei pensando muito sobre isso enquanto assistia ao episódio de sexta-feira (23/10) de Malhação, Meu Lugar no Mundo. Sim, eu vejo Malhação de vez em quando. Me relaxa. Não existem cobranças, envolvimentos emocionais… “a relação perfeita”, como diriam alguns. Malhação me ajuda a simplesmente vegetar na frente do sofá e dar uma pausa, nem que seja por 20 ou 30 minutos, no turbilhão de pensamentos que enchem a minha cabeça.

Pois nesse sexta, não foi isso o que aconteceu. Pensei muito sobre uma cena que vi, ainda absorvida pelo contexto do último texto. A cena era a seguinte: festinha de adolescentes. Uma menina estava lá, dançando com seu shortinho curto e blusa decotada (Rio de Janeiro, né minha gente? Faz calor, nada mais natural…), meio que de olho em um dos carinhas da banda. Eis que chega um elemento, gato e claramente cafajeste e começa a se insinuar para a tal menina que, apesar de não responder da forma como o tal cafa esperava, também não cortou de maneira incisiva mandando o elemento ir pastar.

Com o passar do tempo as investidas do cafa-gato ficaram mais e mais invasivas, com tentativas de beijo roubado e tudo. O que ele não sabia é que sua namorada – sim, o cafa tinha uma namorada do tipo que os homens classificam como “feita para casar” (que nojo dessa definição) – estava no recinto observando a cena de longe.

E aí, aconteceu o que me deixou mais chocada: a tal namorada, incomodada com a situação, parte, aos berros, para tirar satisfações com quem? Com quem? Com a outra menina. Exatamente. Em nenhum momento, tanto nessa cena quanto nas seguintes em que os acontecimentos foram relatados para os amigos de todas as partes envolvidas, ninguém falou que o errado da história era o cara comprometido que ficou dando em cima de uma outra figura que não era a namorada dele. A culpada, no caso, era a “periguete” que estava dando mole para o coitado inocente que apenas respondeu aos seus instintos primordiais de caçador.

Malhação (não me conformo que ainda usem esse nome sendo que a academia de ginástica já evaporou há decadas) é um seriado voltado para adolescentes e que deveria ter uma grande preocupação nas mínimas mensagens passadas para essas pessoas, adultos em formação.

Televisão influencia e muito na vida e comportamento de muita gente, e é ingenuidade acreditar que não. Portanto, um cuidado maior deveria ser tomado. Legal que outro dia fizeram uma imensa campanha pelo direito democrático de votação para escolher o uniforme usado na escola. Mas isso não chega nem perto das lutas reais e assustadoras que devem ser travadas por aí.

Até porque, são os meninos e os adolescentes que viram homens machistas que acham natural bater e estuprar qualquer “periguete” que dá mole por aí. Afinal, se as próprias mulheres – namoradas, colegas de escolas, amigas, tias e mães -corroboram esse tipo de pensamento, porque seria errado? A educação começa em casa. Fico feliz ao ouvir depoimentos preocupados de amigas que têm filhos e desde pequenos tentam ensiná-los a importância de respeitar TODAS as mulheres.

E Malhação, sinto muito, mas você fez um desserviço justificando uma canalhice masculina, se apoiando no estereótipo da mulher “feita para casar” e colocando a culpa na mulher de short curto e blusa decotada. Que feio!

Feminista

23 out

Nunca fui feminista. Nunca li Simone de Beauvoir. Nunca sequer estudei de verdade sobre a conquista de determinados direitos pelas mulheres ao longo dos séculos em diferentes países. Nunca fui do tipo “sororidade acima de tudo”, muito pelo contrário. Nunca tive o ímpeto de defender certas atitudes femininas acima de tudo e todos – principalmente as motivadas por homens “acima de tudo de todos”.

Desde adolescente comprei brigas, muitas, a favor da legalização do aborto. Isso nunca mudou e acho que, dos meus 12, 13 anos até agora, esse foi o tema mais concreto e explícito pelo qual lutei (do meu jeito) em termos de direitos das mulheres. Acho terrível que de lá para cá eu ainda precise comprar brigas sobre esse assunto que, infelizmente na minha visão pessimista de mundo, está longe de ser resolvido de forma digna no Brasil. Valeu Eduardo Cunha pela contribuição ao retrocesso.

Fato é que a internet abriu e refletiu luz em um buraco fundo com cheiro de esgoto da sociedade brasileira (acho que esse é um movimento mundial mas prefiro me ater ao que vivo diariamente). Através de comentários em matérias e redes sociais as pessoas perderam a vergonha de desejarem o mal aos outros. Agora é público porque elas se reconhecem em vários outros comentários. Sem vergonha. Sem limites.

Pois isso fez com que fôssemos (nós, pessoas que têm o mínimo de consciência, preocupação social e bondade no coração) confrontados com uma triste realidade: o mundo é pior do que pensávamos. E existem tantas lutas que devem ser travadas contra tantos e tantos temas, tantos preconceitos, tantas atrocidades feitas por aí…

No meu ativismo de sofá (e eventualmente fazendo volume em manifestações de rua) tento, pelo menos, divulgar o que acho certo e criticar o que acho errado. Mas nas últimas semanas me peguei pensando sobre o que me dói, conversando e lendo manifestações de amigas queridas sobre as mesmas questões (vejam esse texto de Tati Reuter, do blog Café Extra Forte que resume bem o turbilhão de medos, inseguranças e tristezas que nos assombram diariamente).

Sou minoria. Dentro da minoria ainda sou privilegiada. Sou mulher. Mas sou branca de classe média. Se sendo mulher, branca e de classe média sofro diariamente com as limitações provocadas por ser do sexo feminino em uma sociedade extremamente machista, imagine as mulheres negras e pobres? Nem é preciso imaginar, basta ler o texto de Eliane Brum sobre Sandra para se ter uma ideia e, espero, o mínimo de sensibilidade sobre o que essa mulher passou.

O machismo não é velado. Não é escondido, sussurrado. O machismo é orgulhoso de ser machista. Homens comentando publicamente sobre a sexualização de uma criança de 12 anos é o quê? Homens se masturbando em sua frente em um ponto de ônibus às 9 da manhã é o quê (sim, isso aconteceu comigo em SP)? Homens afirmando que mulheres que usam roupas curtas merecem ser estupradas é o quê? Empresas que desvalorizam o trabalho e o salário de profissionais simplesmente porque são mulheres é o quê? A lista, minha gente, é imensa.

E porque a lista é imensa e me parece que muita gente prefere fingir que não vê, que não sabe, que é maluquice, coisa “desse povo politicamente correto” (sou politicamente correta com todo o orgulho do meu ser) é necessário lutar pelas mulheres; é necessário lutar por mim.

Se ao menos 5 dos meu leitores conseguirem repensar a forma como a imagem das mulheres é passada e “consumida” por aí lendo esse texto, os textos que indiquei e tantos outros disponíveis por aí e, repensando isso conseguirem mudar a forma como nos vêem, nos tratam, e mesmo que não sejam machistas, que consigam sair em nossa defesa quando necessário, me darei por satisfeita.

E isso não serve só para os homens; serve também para as mulheres que usam um tipo de machismo velado para culpar suas “concorrentes” por fracassos, seja em âmbito sentimental, profissional, social. Isso é muito comum, muito mesmo. Eu assumo aqui, com muita vergonha, que já fiz e eventualmente me pego fazendo. Por isso quis tentar usar esse meu cantinho textual para pensar, repensar, falar, analisar e melhorar. Quem sabe coisas boas não nascem daqui?

Meus tantos quereres

30 set

A última vez em que escrevi aqui foi sobre uma chuva de meteoros vista na Califórnia. Depois disso viajei, mudei e vi a minha realidade, mais uma vez, ficar de pernas para o ar. Saí de Davis, cidade que para mim será sempre um grande exemplo de qualidade de vida e voltei para São Paulo, cidade que nos últimos anos se tornou um exemplo de falta de qualidade de vida.

Nesse meio tempo ainda passei alguns dias em Salvador, que sempre foi meu lugar de identificação e amor mas que, por relatos de violência urbana que ainda não sei bem se influenciados por histeria coletiva ou pela realidade da cidade, me deixaram bem triste e angustiada, questionando mais uma vez “qual é o meu lugar no mundo?”.

Não sei dizer. Não sei dizer onde gostaria de ter a minha tão sonhada casa, com paredes coloridas cheias de quadros, closet e penteadeira. Queria ficar perto do mar e ter cinemas, amigos, bicicletas e segurança. Queria continuar explorando o mundo, passando temporadas em outros lugares mas com as chaves no bolso e a certeza de que, ao fim desse período, eu teria para onde voltar e só precisaria tirar a poeira dos móveis e canecas guardadas.

Hoje me vejo perdida, mas não só territorialmente. Voltei a procurar trabalho e nesse processo milhões de questionamentos invadem meu consciente, subconsciente e o que mais for possível ser invadido nesse cérebro confuso que faz parte de mim.

Depois de um tempo, de anos de diferentes experiências, tenho certeza do que não quero profissionalmente. Mas não tenho certeza de que posso me dar ao luxo de recusar o que não quero até o ideal aparecer enquanto as contas chegam.

E qual seria esse ideal? Tenho listas de prazeres que fariam um trabalho ser bom. Tenho ideias e intuições sobre o que me deixaria feliz. Tenho plena consciência do mercado profissional que escolhi e das limitações e empecilhos que tais sonhos encontrariam.

Dentro do jornalismo sei o que quero, mas não sei se consigo. Fora do jornalismo não sei o que quero, muito menos se consigo ter forças para começar algo do zero. Tenho admirado, de perto, amigas que encontraram paixões arrebatadoras, largaram tudo, recomeçaram e, apesar das dificuldades, têm aquele brilho no olhar, aquela felicidade pelo domínio sobre suas vidas, seus amores, destinos e profissões. Invejo. Quero o mesmo para mim.

Hoje “acordei de sonhos intranquilos” e fiz listas mentais. Pesquisei sobre cursos. Pensei sobre minhas vontades. Decidi que quero falar sobre cinema, sobre séries, sobre mulheres (beijo Fabi!).

Quero fazer vídeos, reportagens, apresentar programas. Quero escrever meus livros, quem sabe até roteiros, de filmes e de viagens. Quero aprender a costurar, decorar, a fazer móveis e a pintar com aquerela. Quero falar francês. Quero o mundo todo. Mas posso não querer nada isso depois do almoço.

A chuva de estrelas

13 ago

Davis é uma cidade escura. E isso é proposital. Como os moradores daqui não têm grandes preocupações com criminalidade, eles optaram por exigir, junto à prefeitura, que postes de iluminação pública não fossem instalados ou até que fossem retirados de algumas ruas. O motivo? Luz artificial atrapalha a contemplação das estrelas. Foi o que escutei. E acreditei plenamente que essa tenha sido, de fato, a motivação das privilegiadas pessoas que vivem nesse lugar.

Pois em tempos onde cientistas descobrem que o universo está morrendo, recebo a seguinte mensagem no celular: “Pablo está nos chamando para ver uma chuva de estrelas cadentes…”. Pablo, já citado aqui no blog, é o colombiano abrasileirado responsável por nos levar para fazer coisas legais pela Califórnia; coisas legais que talvez nem saberíamos sem ele. De vulcões e girassóis até estrelas.

Saímos às 9 da noite da quarta-feira, 12 de agosto, e entramos na van azul marinho, junto com outros brasileiros. Munida de uma esteira de palha que comprei outro dia na promoção do mercado e me tem sido muito útil nessa rotina de vida perto da natureza, desembarquei do carro em um campo de futebol, deserto e escuro.

Estiquei a esteira no chão, deitei de barriga para cima e olhei para o céu. Olhei para o céu da Califórnia, para o céu de Davis, durante uma hora. Eventualmente escutava alguém dizer: “olha ali um!”, “acabou de passar outro!”… e eu não via nada.

Para uma ansiosa crônica como esta que vos escreve, não foi um momento fácil. Por algumas dezenas de minutos a situação foi torturante; eu pensava “droga, só eu não consigo ver uma estrela cadente?”, “droga, estava olhando pro lado errado?”, “droga, será que eu pisquei na hora que passou?”, “droga, só eu não consigo ver uma estrela cadente?” – e assim segui durante um tempo.

Mas depois, encarando aquela imensidão de estrelas que parecia me abraçar, me afagar e me acalmar diante da grandeza e da beleza do universo, parei de ligar para o fenômeno que nos levara até ali (que, na verdade, era uma chuva de meteoros).

Sempre vivi em cidades grandes (com exceção de dois anos na infância), portanto o prazer de olhar as estrelas sempre foi muito limitado aos momentos de viagens para lugares menores, situação que não acontece com muita frequência. Nunca em São Paulo ou Salvador; nunca distraidamente ao voltar para casa à noite; nunca deitada em um campo de futebol escuro.

Me vi apaixonada pelo céu, pelas estrelas e pelo universo. Pensei sobre seu fim, sobre ser sem fim. E quase uma hora depois, finalmente gritei “ÊEEE”. Sim, vi uma estrela cadente (meteoro Paloma, meteoro!).

Apenas uma numa noite especial de “chuva”, onde várias cortaram o céu. Vi uma e, de tão excitada pela visão, esqueci de fazer meu pedido.