Soteropolisampa

Ano passado eu quase fui embora de São Paulo. Me disseram que por causa desse texto eu fiquei…

Soteropolisampa

“Sou soteropolitana. Baiana mesmo, do tipo que se irrita e procura confusão quando escuta pelas ruas da maior cidade do Brasil, a definição do lugar de onde nasci como sinônimo de algo brega, desagradável, feio.

Ora, foi um ilustre conterrâneo, responsável pela homenagem musical mais bonita que São Paulo já recebeu. Não merecemos tal desaforo. Caetano acertou tão em cheio ao descrever a “poesia concreta de suas esquinas” e “a deselegância discreta de suas meninas” que isso só prova como o olhar de quem vem de fora é incrível para com essa cidade tão difícil.

Difícil por ser imensa, por tudo ser excessivo, corrido e impessoal. Difícil porque as pessoas se acostumaram a ofender o diferente que vem do Nordeste, e exaltar o diferente que vem de outro continente (se for o europeu e a parte de cima do americano, que fique claro).

E esse é um grande erro, afinal, os “paulistanos da gema puríssima” que me perdoem, mas a beleza dessa cidade está na mistura. É lindo tirar um dia para flanar pelo Centro, observando a arquitetura incrível de antigamente e encontrar uma comida peruana dividindo a calçada com pratos japoneses e sentir um aroma de dendê da baiana de acarajé que se encontra do outro lado da rua.

Assim como nunca vi coisa tão igualitária quanto um ônibus cheio em horário de pico na Avenida Faria Lima, a esteticamente oposta do Centro, onde os prédios espelhados se exibem cheios de riqueza e modernidade. Pois é nessa avenida que o transporte coletivo serve para TODOS. Para os engravatados dos investimentos, os moderninhos da tecnologia, os que trabalham da construção dos arranha-céus, as copeiras e faxineiras que muitas vezes sequer são notadas nos escritórios, mas que ali, naquele ambiente apertado onde todos têm o mesmo objetivo de chegar em casa, seja lá onde essa casa seja, estão lado a lado.

São Paulo é fascinante. Assumo uma relação de amor e ódio com a cidade desde que cheguei. Aqui não tem mar. Mas tem gente que anda na rua de cabelo verde, meia calça furada, chapéu de cowboy e ninguém liga (pelo menos não na Rua Augusta). A liberdade que a cidade grande entrega a quem quer apenas se misturar na multidão e viver sua vida sem que isso seja um problema é uma dádiva.

Não digo que não existam preconceitos (até citei algo que me ofende pessoalmente no início deste texto), muito pelo contrário; mas para quem vem da região mais acima no mapa, há sim uma grande diferença no sentir e no viver seus direitos de ver, de ir e vir.

São Paulo até tenta separar, mas agrega. Basta dar uma olhadinha na Avenida Paulista aos domingos. É uma coisa linda. Tem de tudo, mais um pouco e mil possibilidades. É a rua ocupada pelo povo que quiser aparecer para ocupar.

Talvez essa seja mesmo uma boa palavra para definir a “selva de pedra”: ocupada! Sempre ocupada com algo para fazer, e sempre ocupada por gente de tudo quanto é canto que “acredita no sonho feliz de cidade e aprende depressa e chamar-te de realidade” (ah, “Sampa”, sempre “Sampa”).

Por Paloma Guedes, retirante nordestina que vive em São Paulo desde fevereiro de 2008.”

Faz alguns dias que deixei a cidade e não sei se volto.
Essa me pareceu uma boa despedida.
Te amo e te odeio, São Paulo. 🖤

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