32996990_xlDSEO8f_c_largeMinha melhor matéria nos tempos de escola sempre foi redação. Até mesmo quando me tornei uma adolescente meio desajustada e deixei de ser a excelente aluna que sempre fui até os 13, 14 anos. As notas de exatas foram para o fundo de um poço sem fundo. As de humanas caíram de ótimas para boas mas, em redação, eu continuava sendo uma das melhores da classe, de todas as classes por onde passei.

Por isso, no momento da fatídica decisão pré-vestibular, escolhi jornalismo. Se conhecesse melhor o mercado e se naquela época, início dos anos 2000, soubesse o que esse mercado se tornaria com a chegada da internet (isso é assunto para outro post), provavelmente teria escolhido outra coisa. Quem sabe letras. Ou música. Ou outra coisa. Não sei.

Fato é que eu gostava de escrever. Escrevia sem obrigação nas minhas agendas sempre cheias de palavras, listas, códigos e colagens. Escrevia nos papéis de carta, coloridos e cheirosos, que deviam ser guardados intactos nas pastas de colecionadora. Escrevia em folhas de papel ofício e sonhava em ter uma máquina de escrever. Só tive uma de brinquedo. Nunca uma de verdade.

Escrever me ajudava a organizar os pensamentos, sempre abundantes e descontrolados. Me acalmava, relaxava. Era “a minha coisa”, o meu talento, o meu prazer.

Um dia, às vésperas de sair de Salvador e mudar para São Paulo, pedi que meu pai desenhasse algo para que eu tatuasse, algo que o fizesse lembrar de mim, que ele achasse minha cara. Pela primeira vez ele concordou (a primeira tatuagem, feita aos 15 anos, não foi bem aceita). E ele desenhou, sem me contar antecipadamente o que seria, uma pena de escrita. Tatuei a pena no antebraço esquerdo, próxima a minha mão esquerda. Sou canhota.

Com o passar dos anos continuei escrevendo, profissionalmente e pessoalmente. No jornalismo, exigia-se que a escrita, cada vez mais, fosse rápida, curta, concisa. Na minha minha vida, ela servia como a válvula de escape de sempre mas, dessa vez, compartilhada com quem quisesse ler.

E entre elogios, críticas, gentilezas e ataques fui me tornando medrosa. Insegura sobre até onde deveria me expôr, sobre a qualidade dos meus textos, sobre a recepção daquilo por quem me conhecia bem e por quem não fazia ideia de quem eu era (sou). Me senti triste por julgamentos e pela falta deles, por quem sequer tinha interesse em saber o que eu havia dito ali. E me julguei, como sempre, da maneira mais cruel do que qualquer outra pessoa poderia fazer.

Aos poucos fui perdendo o prazer. Continuava pensando em forma de escrita, como faço desde que aprendi a escrever. Muitas vezes meus pensamentos  vêm em formato de frases combinadas em parágrafos. Mudo palavras e procuro sinônimos para evitar repetições, e vez ou outro abuso dessas tais repetições. Busco a beleza na construção linguística. É como um jogo, uma dança, uma música. Meu jogo, minha dança, minha música. Algo que eu sempre soube fazer.

Não sei exatamente onde me perdi. Acho que foi um processo longo, numa combinação de diversos fatores, diversas experiências, neuroses e impaciências. Sei menos ainda como me achar, resgatar, recuperar. 

Só sei que nesse momento de questionamentos profundos sobre meu lugar no mundo, sinto falta do meu eu que sonhava em ser escritora e corria para o caderno, agenda, guardanapo ou frente do computador sempre que podia e se orgulhava disso; não necessariamente do resultado final da combinação de palavras, mas sim de ter uma grande paixão que dependia única e exclusivamente de mim.

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