Publicado em Femininsmo, Pensamentos

A culpa é da “periguete”

Falando em sororidade no texto anterior, me peguei pensando muito sobre isso enquanto assistia ao episódio de sexta-feira (23/10) de Malhação, Meu Lugar no Mundo. Sim, eu vejo Malhação de vez em quando. Me relaxa. Não existem cobranças, envolvimentos emocionais… “a relação perfeita”, como diriam alguns. Malhação me ajuda a simplesmente vegetar na frente do sofá e dar uma pausa, nem que seja por 20 ou 30 minutos, no turbilhão de pensamentos que enchem a minha cabeça.

Pois nesse sexta, não foi isso o que aconteceu. Pensei muito sobre uma cena que vi, ainda absorvida pelo contexto do último texto. A cena era a seguinte: festinha de adolescentes. Uma menina estava lá, dançando com seu shortinho curto e blusa decotada (Rio de Janeiro, né minha gente? Faz calor, nada mais natural…), meio que de olho em um dos carinhas da banda. Eis que chega um elemento, gato e claramente cafajeste e começa a se insinuar para a tal menina que, apesar de não responder da forma como o tal cafa esperava, também não cortou de maneira incisiva mandando o elemento ir pastar.

Com o passar do tempo as investidas do cafa-gato ficaram mais e mais invasivas, com tentativas de beijo roubado e tudo. O que ele não sabia é que sua namorada – sim, o cafa tinha uma namorada do tipo que os homens classificam como “feita para casar” (que nojo dessa definição) – estava no recinto observando a cena de longe.

E aí, aconteceu o que me deixou mais chocada: a tal namorada, incomodada com a situação, parte, aos berros, para tirar satisfações com quem? Com quem? Com a outra menina. Exatamente. Em nenhum momento, tanto nessa cena quanto nas seguintes em que os acontecimentos foram relatados para os amigos de todas as partes envolvidas, ninguém falou que o errado da história era o cara comprometido que ficou dando em cima de uma outra figura que não era a namorada dele. A culpada, no caso, era a “periguete” que estava dando mole para o coitado inocente que apenas respondeu aos seus instintos primordiais de caçador.

Malhação (não me conformo que ainda usem esse nome sendo que a academia de ginástica já evaporou há decadas) é um seriado voltado para adolescentes e que deveria ter uma grande preocupação nas mínimas mensagens passadas para essas pessoas, adultos em formação.

Televisão influencia e muito na vida e comportamento de muita gente, e é ingenuidade acreditar que não. Portanto, um cuidado maior deveria ser tomado. Legal que outro dia fizeram uma imensa campanha pelo direito democrático de votação para escolher o uniforme usado na escola. Mas isso não chega nem perto das lutas reais e assustadoras que devem ser travadas por aí.

Até porque, são os meninos e os adolescentes que viram homens machistas que acham natural bater e estuprar qualquer “periguete” que dá mole por aí. Afinal, se as próprias mulheres – namoradas, colegas de escolas, amigas, tias e mães -corroboram esse tipo de pensamento, porque seria errado? A educação começa em casa. Fico feliz ao ouvir depoimentos preocupados de amigas que têm filhos e desde pequenos tentam ensiná-los a importância de respeitar TODAS as mulheres.

E Malhação, sinto muito, mas você fez um desserviço justificando uma canalhice masculina, se apoiando no estereótipo da mulher “feita para casar” e colocando a culpa na mulher de short curto e blusa decotada. Que feio!

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Publicado em Seriados

Eu prefiro a original

Camille e Lena americanas
Camille e Lena americanas

Quando soube que os americanos fariam uma versão de Les Revenants, fiquei confusa. A série francesa só teve uma temporada até o momento – e os fãs, assim como eu, seguem ansiosos esperando pela continuação que deve estrear no segundo semestre de 2015.

E aí, eis que o canal A&E resolve fazer algo semelhante, só que falado em inglês. Não entendo. Eu sei, eu sei que não é nenhuma novidade, olha aí o caso de The Office, que muita gente sequer sabe que é uma série inglesa que não passou da segunda temporada e a versão feita nos Estados Unidos fez um mega sucesso. Mas, como na época que tudo aconteceu eu não acompanhava a inglesa, não fiquei tão indignada quanto o caso de agora. Me chamem de incoerente, tudo bem, eu aceito.

Vi no primeiro episódio de The Returned uma cópia descarada de uma série que sequer foi desenvolvida ainda. E uma cópia que, para quem viu a original, parece que cheira a plástico.

Alguns personagens têm os mesmos nomes; a paisagem, apesar da ambientação em países diferentes, é a mesma; as histórias são iguais; alguns personagens ascenderam profissionalmente – sei lá porque acham melhor transformar uma enfermeira em médica, já que outras coisas são idênticas.

E é isso que me deixa mais confusa: porque copiar algumas coisas e outras não? Porque mudar certos aspectos e outros, os mais importante, deixar iguais? Você que mudar ou quer fazer diferente? Quer chupar o que você acha de bom mas dar sua “mexida” na história, para ter sua assinatura? Sei não.. gostei não..

Os atores de Les Revenants têm uma cara muito mais real, obviamente, do que os galãs escalados para The Returned. E isso já faz com que a aura de mistério da francesa pareça mais profunda e dolorosa. Talvez eu ache isso porque tive um olhar de preconceito, assumo, quando assisti.

Ou talvez seja essa pasteurização que a indústria americana enfia em seus produtos para deixá-los todos com a mesma cara. Que fique bem claro, gosto, e muito, de muita coisa produzida aqui, mas é só assistir produtos de outros países que você consegue perceber de imediato a diferença. E aí, acaba ficando meio no insciente da gente, pelo menos no meu, de dar uma atenção maior e até ver mais qualidade nesse diferente. Viajei muito?

Fato é que a história dos mortos que voltam é muita boa. E provavalmente fará sucesso, e talvez ganhe até milhões de temporadas enquanto os franceses lutam lançar a parte dois. Há um tempo até escrevi sobre ela no blog que tive no Yahoo, comparando com Resurrection, outra série de temática parecida, que estava para estrear e não escapou das comparações. Vai ver que como essa vingou, acharam que valia investir na outra.

Se você gostou de The Returned, por favor, corra atrás de assistir a original. Vale muito a pena.

Coloco aqui a música que fez parte do comercial que anunciava a estreia da série nos Estados Unidos e me apresentou à essa versão linda de uma música pelo qual sou apaixonada há muitos anos (obrigada Confissões de Adolescente).

Publicado em Crise dos 30, Pensamentos

Confissões de uma fracassada em potencial

Frequentemente eu me sinto fracassada. Pelas pequenas e grandes coisas que faço, pelas pequenas e grandes decisões que tomo. É algo maior do que eu e que, obviamente, deveria ser tratado durante anos em incontáveis sessões de terapia, mas que ainda não foi.

E esse meu sentimento de fracasso me paralisa de tal forma que bloqueia completamente qualquer auto-aceitação às coisas boas e interessantes que realizei, assim como sempre encontro um defeito quando escuto um elogio alheio. Posso até não dizer no momento que escuto, mas internamente sempre busco milhões de opções e comparações que transformem tal elogio em um gesto gentil de educação. Como gosto de gentilezas, fico feliz em recebê-las, apesar da mente louca não parar de trabalhar na auto-depreciação constante.

(Sim, sou louca. Sempre tive medo de ficar louca. Estou ficando. Já sou).

E digo mais, meus poucos, queridos e importantes leitores: é muito cansativo ser dessa forma. Afinal, por mais que me esforce, e me esforço muito, nada está tão bom quanto eu acho que deveria estar. Nada terá notoriedade, porque obviamente não está tão bom e, claro, não merecerá atenção para uma divulgação mais cuidadosa ou uma vendida de peixe das boas que me faça chegar onde eu quero.

E onde eu quero chegar? Quero escrever. Escrever mais. Escrever crônicas irônicas, inteligentes e divertidas no blog sobre detalhes cotidianos que passam desapercebidos mas que com as palavras certas podem se tornar deliciosos pontos de observação de um leitor mais atento.

Só que frequentemente me pego reprimindo tais textos por achar que não estão tão bons, que ninguém se importa com o que acho das coisas e que deveria guardar tudo para mim.

Quero escrever livros. Meus livros. Meus eternos projetos de livros que se modificam mas estão aqui, em pastas, e-mails e hd’s externos mostrando que não tenho a disciplina e a coragem de dizer que sou capaz de escrever um livro de verdade.

E assim sigo enrolando, tentando escrever um parágrafo aqui, outro ali, mas acreditando que nunca serei boa o suficiente, seja na escrita ou na auto-promoção para fazer a coisa seguir adiante.

Porque essa questão da auto-promoção é um problema. Tem gente que tem um grande talento: se vender. Exaltar suas qualidade de tal forma que, mesmo que elas não existam, qualquer um acredita e paga para ver. Conheço um monte de gente medíocre assim. Mas essas pessoas publicaram livros. E sim, as invejo. Porque elas têm coragem, elas acreditam em seu próprio taco e não estão nem aí para a opinião alheia. Ou se estão, fingem muito bem. Auto-confiança é tudo nesse vida.

Também quero trabalhar mais com TV. Nunca fui daquelas que desde a faculdade fazia de tudo para ficar em frente às câmeras e até achava bem boboca quando me perguntavam o que eu estudava e, ao responder jornalismo, ouvia um “quer ser a próxima Fátima Bernardes, né?”.

Eu não. Quero ser mesmo uma Marília Grabriela, ou um Jon Stewart brasileiro (mas aí vem o problema de que não sei fazer comédia, apesar de ter um pé na ironia). Gosto de entrevistar, de ter tempo para pesquisar e poder esmiuçar detalhes da vida e/ou carreira de pessoas que estejam dispostas a contar suas histórias. Claro que sempre existem os não tão bem-dispostos assim, mas até esses eu gosto de entrevistar. Tá, não gosto, mas se é necessário para o trabalho, eu faço.

Gosto de vídeo. Gosto do trabalho de edição, da inserção de trilha sonora, imagens de apoio, recursos tecnológicos. Gosto de ver as palavras saindo da boca do entrevistado – apesar de também achar fascinante a capacidade de descrever o que um entrevistado disse e prender a atenção das pessoas com palavras em um papel (ou site, para também ser moderna). Gosto tanto da escrita quanto do audiovisual.

Mas eu tenho o sotaque carregado. Não me encaixo em padrões de beleza e ainda tenho a língua presa. Às vezes acho que isso não tem importância e que tenho talento, que fiz entrevistas e programas dos quais gostei bastante, dos quais me orgulho e que deveria continuar insistindo nisso. Mas às vezes acho que estou apenas me iludindo e que nunca, ninguém que possa me pagar um salário digno, vai querer me contratar para esse tipo de função.

Sabe o que é o mais doido de tudo, já que assumi publicamente que sou maluca? Eu me acho competente. Muito. E sei que fiz bem-feito na grande maioria dos lugares onde trabalhei. Me orgulho do meu trabalho, mas duvido de mim. Faz sentido?

Também queria aprender a costurar, mas acho que até as agulhas e linhas vão querer manter distância de alguém que reclama tanto assim de si. Bom, talvez essa seja a hora certa de buscar minhas agulhas perdidas no palheiro..