Publicado em Seriados, TV

O início de Subúrbia

Não canso de declarar meu amor audiovisual a Luiz Fernando Carvalho. Acho que ele é a pessoa que faz as coisas mais lindas na TV Globo.

Na última quinta estreiou sua última empreitada na emissora, “Subúrbia”, que terá 8 episódios exibidos às quintas-feiras e roteiro do diretor juntamente com o escritor Paulo Lins, responsável pelo livro que deu origem a “Cidade de Deus”. Inclusive, como aconteceu no filme de Fernando Meirelles, grande parte do elenco é formado por desconhecidos e, muitos deles, que não eram atores. Nessa história conheceremos Conceição e sua vida sofrida que a levará até o subúrbio do Rio de Janeiro, no bairro de Madureira.

Gostei do que vi, apesar de assumir minha preferência pelo universo fantástico com bonecos falantes, cenários estranhos feitos com giz e figurinos incríveis. Gosto do diferencial e não sei bem se o fato de retratar o ambiente do subúrbio, ao som do funk, permitirá que essas qualidades de Carvalho apareçam.

Mas, mesmo assim, dá para perceber, por pequenas sutilezas ao contar a história, com movimentos de câmera e luz, que é algo diferente do que costuma ser feito. É algo de Luiz Fernando Carvalho. E será Luiz Fernando Carvalho tocando claramente em questões sociais. Difícil ser ruim, né?

No primeiro episódio – com narrativa em off do ponto de vista da protagonista em alguns momentos -, Conceição, ainda criança, está em uma carvoaria, em Minas Gerais, com sua família. A pobreza extrema é evidente, crua e coberta pela cor preta de carvão que se mistura com a pele dos personagens. Esse foi o momento mais lúdico e esteticamente deslumbrante, com a assinatura de cores e imagens do diretor. Triste, angustiante, profundo e belíssimo.

Após um acidente a menina decide abandonar mãe, pai e sua égua e única amiga Rapunzel, para seguir atrás do “morro feito de açúcar”, após encontrar uma imagem de recorte de jornal do ponto turístico carioca. Na visão da criança, ali sua vida poderia ser melhor.

Conceição chega ao Rio em pleno carnaval, já que seu caminho é atravessado por pessoas fantasiadas, provavelmente saídas de escolas de samba, o que só aumenta o cenário de encanto da menina em busca do sonho.

Pois em meio ao seu deslumbramento com a “cidade maravilhosa”, Conceição é confundida com meninos de rua que acabaram de assaltar um casal de turistas no melhor estilo “gringos sofrendo arrastão no Rio de Janeiro”. Os meninos, inclusive, usam colares havaianos e coroas de rei, caracterizando ainda mais a época do carnaval.

Pois bem, Conceição é presa e na cena na delegacia descobrimos que ela não sabe seu sobrenome e sua idade mas que leva sempre com ela uma imagem da Nossa Senhora Aparecida, de quem é muito devota. De lá a menina é levada para uma instituição de menores infratores.

Nesse momento, o clássico de toda história de cadeia acontece: uma valentona tenta impôr sua superioridade diante de novata pequena e magrinha porém, ao contrário do que se espera pela aparência frágil de Conceição, ela enfrenta a figura que tem o dobro do seu tamanho demonstrando ali toda a sua força.

Não somente sua força como também sua esperteza ficam evidentes nesse momento “encarceirada”, afinal, todo mocinho que se preza cria um plano e foge.

A partir dessa fuga a vida de Conceição muda mais uma vez. Coincidentemente ela é atropelada por Sylvia, recém-separada com dois filhos pequenos para criar e uma tese de doutorado para terminar que, ao socorrê-la, vê uma bela oportunidade de exploração infantil disfarçada de boa-ação, muito comum em lares brasileiros: a de colocar a menina, ainda criança, como empregada em sua casa. Claro que isso não é explícito, inclusive no off de Sylvia que é quem nos conta sobre sua vida e sua decisão de “acolher” Conceição.

Através da TV é marcada a época em que a história acontece: Conceição começa a demonstrar interesse pela dança enquanto trabalha e assiste ao programa do Chacrinha, exibido na década de 80. Depois disso, Conceição cresce, no mesmo lugar e aparentemente se sente muito à vontade naquele ambiente, naquela situação. E mais uma vez a TV marca a passagem de tempo, agora em imagem que anuncia a crise econômica pelo Plano Collor, nos anos 90, e provoca ira do namorado de Sylvia, convidado para morar no apartamento após ter seu dinheiro congelado – informação que será importante no fim do episódio.

Um belo dia, Conceição é levada para Madureira por sua única amiga, Vera, que a convida para conhecer sua família no feriado. A alegria da moça pela contagiante animação das pessoas no bairro é evidente. Para quem já esteve em bairros da periferia sabe bem que a diferença entre eles e os condomínios onde a classe média e alta têm se escondido ao máximo para evitar qualquer tipo de socialização exterior é gritante.

E para quem já esteve na periferia sabe que, apesar de parecer caricata, a representação na série com barulho, música alta, dança, muita gente reunida nas ruas e nas casas é verdade. Claro que a TV sempre dá uma romanceada e glamurizada nos ambientes, mas a essência de “reunião” e alegria por uma simples festa no quintal e banho de mangueira na laje me parece verdadeira.

Evidente também é o poder que Conceição exerce nos homens com seus atributos físicos (Erika Januza, a atriz, é realmente lindíssima). Ela é cobiçada pelos rapazes do bairro e até desperta a atenção daquela que, claramente, será sua rival: Jéssica, a “poderosa” local no melhor estilo traveco de ser.

Após o feriado, Conceição retorna para o apartamento onde mora e trabalha, cumprindo ordens da patroa que viajou com a família. Para quem tem o mínimo de percepção sabe que é claro que algo de ruim vai acontecer.

O tal namorado da mãe, Cássio, está no apartamento e, na última cena do primeiro episódio, tenta violentar nossa mocinha. Apesar da demonstração de força no início, não dá para saber se ela conseguirá se livrar. Agora é só aguardar as cenas do próximo capítulo.

E para saber mais sobre o programa, seus personagens e atores, eis o site oficial.

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A culpa é da mãe

 

O futebol e eu nunca tivemos uma relação próxima até que arranjei um namorado torcedor. E não um torcedor qualquer, de ocasião, mas daquele tipo que vibra, berra, devora todas as unhas dos dedos, sofre e tem sérias variações de humor dependendo do resultado da partida.

Pois, a partir daí, passei a acompanhar os resultados de seu time – mesmo quando não estamos juntos – só para tentar prever como estarão os ânimos no próximo encontro.  E é claro que, quando as coisas vão mal e não recebo tantos carinhos e beijinhos quanto gostaria, jogo grande parte da culpa no juiz.

Assisti, por acaso, ao primeiro episódio de (fdp), nova série brasileira exibida na HBO. Nessa primeira temporada serão 13 episódios de 30 minutos – o que facilita muito a vida de quem quiser acompanhar.

Eu já tinha ouvido falar do projeto e achei sensacional a ideia de focar na vida de um juiz de futebol, o mais xingado – daí a inspiração para o título genial – e odiado por milhões de torcedores, de um jeito ou de outro (lembre do meu caso citado acima que, nem torcedora sou e já pensei em fazer vodu com alguns que atrapalharam resultados favoráveis para o time e minhas noites românticas).

Dessa vez, não são os super jogadores com seus salários milionários que recebem toda a atenção, é Juarez Gomes da Silva (interpretado por Eucir de Souza), que sonha em apitar uma final de copa do mundo. E é exatamente assim que o episódio começa: na representação desse sonho, com estádio cheio, narração em inglês, uma série de elogios ao seu desempenho – algo raríssimo de acontecer – e, no final da partida, jogadores de todos os times e um estádio lotado aplaudindo e ovacionando o trabalho da arbitragem.

Pois descobrimos que Juarez é profissional e íntegro, apesar da todas as pressões sofridas. Nesse início, ele perde a guarda compartilhada do filho adolescente por ter dado um pênalti nos minutos finais do campeonato paulista para o time adversário de outro juiz, o que cuidava da questão familiar.

E essa questão familiar também já se apresenta como muito importante na vida do personagem. Ele acabou de ser expulso de casa pela esposa (Cynthia Falabella) que, ao descobrir que pegou uma doença venérea, decide se separar de uma forma nada amigável – e ninguém pode questionar suas razões.

Para completar as relações pessoais de Juarez conhecemos sua mãe, a sempre citada pelos torcedores mais raivosos e magoados, e o melhor amigo e ogro, o bandeirinha Carvalhosa (que parece ser apenas uma extensão de Paulo Tiefenthaler, apresentador do programa Larica Total, do Canal Brasil).

É engraçado. É divertido. Alguns diálogos são bons, outros parecem forçados para levar um pouco da simplicidade cotidiana a algumas cenas mas nada que assuste, incomode ou dê vontade de parar de ver.  Nesse piloto, apesar de algumas obviedades e clichês – o que aconteceria caso o time do “outro” juiz perdesse, o amigo tosco sempre disposto a “ajudar” na separação, a mãe fazendo piada das piadas de mãe de juiz de futebol – o tema mostrou que pode ser desenvolvido e explorado de várias maneiras legais, afinal, que outras profissões você conhece onde uma mesma pessoa, inevitavelmente, será amada e odiada por milhares ao final de 90 minutos de trabalho?