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A cor da consciência

Ao contrário de muitas manifestações que li por aí no dia de hoje, não acho que existir um Feriado da Consciência Negra seja uma forma de exaltar o preconceito. Na verdade, nem entendo direito como as pessoas conseguiram chegar à essa conclusão.

Acho que, em um país racista como o Brasil, se a data ajudar a gerar discussão ou pelo menos que alguém páre e pense: “mas porque diabos precisa existir algo assim?”, já é válido.

Eu sou branca, nascida em Salvador, flha da mãe negra que, durante toda a minha infância foi confundida com minha babá. Eu também conseguia perceber a diferença na quantidade de colegas negros e brancos que estudaram nas escolas particulares em que estudei e vejo, claramente, a insegurança de muitos motoristas quando qualquer pessoa de pele negra passa perto de seus carros no meio do trânsito. Então, hipocrisia é dizer que preconceito não existe né?

Existem muitos e seria muito bonito que aparecessem feriados para cada um desses preconceitos tão presentes em discursos cotidianos e “despretensiosos” no Brasil. Ou se não fossem feriados, se fossem mais paradas, mais manifestações de rua que chamassem a atenção de milhões em um dia específico, sei lá. Não tenho solução. Mas não acho absurdo.

O absurdo, hoje, é que exista o tal feriado em cidades como São Paulo e não em Salvador onde mora a maior população negra no mundo fora da África. Realmente, não entendo.

E para finalizar, como trilha do dia, uma lindíssima música que faz com que toda a negritude que corre por minha veias (infelizmente não tive a sorte de ter na pele) exploda de emoção.

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Publicado em Turismo

Pizzarelli e o que há de bom na cidade

Um clichê super verdadeiro sobre São Paulo diz respeito à imensa quantidade de opções culturais que existem por aqui. É uma verdade que faz com que morar na cidade valha muito a pena. E o melhor de tudo é que, como existem muitas opções de lugares e atrações, é possível ver muita coisa boa sem precisar gastar rios de dinheiro.

 Por representar tudo isso que acabei de falar, declaro publicamente meu amor ao Sesc. Acho um projeto simplesmente sensacional e que funciona muito bem. São unidades espalhadas em vários bairros da cidade, não somente nos mais centrais ou de “gente diferenciada”.  Os ingressos são vendidos a preços populares de verdade – se você tiver a carteirinha de comerciário paga a meia da meia entrada – e é possível comprar para qualquer evento em qualquer uma dessas unidades, já que o sistema integrado deles funciona bem.

Existem opções de show musicais, peças de teatro, exposições, cursos, atividades esportivas… é massa.  Um dos meus lugares preferidos em São Paulo é o Sesc Pompéia. Foi lá que vi a exposição de Sophie Calle – Cuide de Você -, show de Yael Naim, Liniers com Kevin Johansen + The Nada e mais recentemente o de John Pizzarelli, só para citar alguns exemplos.

Para mim, que além de ser preguiçosa também não gosto de sair durante a noite, os shows do Sesc sempre foram uma opção sensacional porque começam cedo e, consequentemente, terminam cedo. Para quem gosta de cair na farra, é bom também porque dá tempo de continuar a noitada em outros lugares. E mais: das unidades que conheci, só comi – por enquanto – no Pompéia, e posso dizer que a comida é boa e barata de um jeito que você mal encontra nos botecos sujos perdidos por aí. As bebidas também, tão baratinhas que às vezes fica até difícil de controlar os pulinhos animados ao pedir aquela caipiroska delícia por menos de dez reais.

Por isso um conselho para os amigos que moram na cidade: sempre que vocês puderem, dêem uma olhadinha na programação no site. Nunca paguei mais que 20 reais em nenhum show. E para os amigos que são de fora: sempre que vierem passear pelos lados de cá, vale muito olhar a programação e conhecer pelo menos um das unidades. É garantia de programa bom, bonito e barato.

E para reafirmar minha boa impressão, sempre seguida de uma boa sensação, no último fim de semana estive no projeto Jazz na Fábrica, que promove shows com músicos de todo o mundo. Pois eu não conhecia John Pizzarrelli até que minha querida Karin me ofereceu um ingresso para a apresentação na noite de domingo. Eu, fã apaixonada de Jazz (que deveria tomar vergonha na cara e ouvir mais, pesquisar mais, ter mais CD’s), fui junto.

O Sr. Pizzarelli é uma figura de New Jersey, que tinha ares e figurino de um dos Sopranos. Simpático, arranhava umas palavras em português e, além de cantar músicas de Tom Jobim, fez a melhor imitação de João Gilberto que já vi na vida. Acompanhado por um trio de músicos, incluindo seu irmão caçula no contra-baixo, tocou belíssimas canções de grandes nomes dos Estados Unidos como George Gershwin, Johnny Mercer, Sammy Cahn e Nat King Cole, com pitadas de Tom Waitts, Joni Mitchell, Beatles e bossa nova.

Foi mais uma deliciosa noite no Sesc com músicas que davam vontade de dançar ou apenas de escutar, com os olhinhos fechados, respirando romance e alegria.

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Onde São Paulo vai parar?

A TV Folha publicou o seguinte vídeo:

Continuo assustada com a possibilidade de Celso Russomanno virar prefeito da maior e mais rica cidade do Brasil. Assim como, e diria que além do pavor, sinto uma revolta imensa quando encontro essas demonstrações de conservadorismo que, no dia a dia, aparecem claramente em discursos da classe média paulistana.

É gente que não assume a veia racista e reacionária mas que não aceita que um metrô leve “gente diferenciada” para seu bairro, que acha feio ver dois homens se beijando no meio da rua, que acredita que mulheres que usam saia curta merecem agressões sexuais ou que acha engraçado – e justifica com o bom e velho “mas não é por mal, é maneira de falar” – usar “baiano” como xingamento. E por aí vai..

O mais assustador é que isso acontece na cidade que reúne mais gente de todos os lugares, não só do país mas também do mundo. Que reúne grandes empresas, grandes empreendimentos, grandes possibilidades. Onde existe uma vida cultural intensa. A mais importante universidade do país. Onde o bom exemplo de cidadania e respeito deveria ser dado.

Mas talvez exatamente por ter muito de tudo, a cidade não consegue lidar com tanto e apresente reações agressivas a quem não é seu filho natural, dentro dos padrões de normalidade e bons costumes estabelecidos provavelmente em algum século passado.

São Paulo tem tanto potencial para ser melhor do que isso. Espero que a eleição não prove o contrário.

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Casa Nova

Neste exato momento estou sem casa. Sem casa física, passando por um período de transição que sei lá quando vai acabar. Nasci em Salvador. Mudei para São Paulo. Passei alguns meses na Califórnia. Outros poucos em Salvador. Retornei para São Paulo e após um tempo a vida voltou para malas.

Neste momento também resolvi mudar a casa das palavras. Resolvi me “profissionalizar” e botar meu nome no endereço. E redecorar tudo. Ainda morro de dúvida sobre minhas tão queridas cores berrantes ou sobre o ar mais clean, sóbrio e sério que tento dar ao blog, para que não fique com cara de diário de adolescente. Apesar de que em alguns momentos será uma espécie de diário. E em outros uma espécie de “local de trabalho”.

É, continuo na dúvida sobre as cores da parede, a cara da casa e o rumo da vida.

Boa sorte para mim.

E a belíssima ilustração que está neste post e na capa do blog é do artista pernambucano – e assim como eu retirante na cidade cinza – Lese Pierre. Para saber mais sobre o seu trabalho é só ir em seu site.