Meus tantos quereres

A última vez em que escrevi aqui foi sobre uma chuva de meteoros vista na Califórnia. Depois disso viajei, mudei e vi a minha realidade, mais uma vez, ficar de pernas para o ar. Saí de Davis, cidade que para mim será sempre um grande exemplo de qualidade de vida e voltei para São Paulo, cidade que nos últimos anos se tornou um exemplo de falta de qualidade de vida.

Nesse meio tempo ainda passei alguns dias em Salvador, que sempre foi meu lugar de identificação e amor mas que, por relatos de violência urbana que ainda não sei bem se influenciados por histeria coletiva ou pela realidade da cidade, me deixaram bem triste e angustiada, questionando mais uma vez “qual é o meu lugar no mundo?”.

Não sei dizer. Não sei dizer onde gostaria de ter a minha tão sonhada casa, com paredes coloridas cheias de quadros, closet e penteadeira. Queria ficar perto do mar e ter cinemas, amigos, bicicletas e segurança. Queria continuar explorando o mundo, passando temporadas em outros lugares mas com as chaves no bolso e a certeza de que, ao fim desse período, eu teria para onde voltar e só precisaria tirar a poeira dos móveis e canecas guardadas.

Hoje me vejo perdida, mas não só territorialmente. Voltei a procurar trabalho e nesse processo milhões de questionamentos invadem meu consciente, subconsciente e o que mais for possível ser invadido nesse cérebro confuso que faz parte de mim.

Depois de um tempo, de anos de diferentes experiências, tenho certeza do que não quero profissionalmente. Mas não tenho certeza de que posso me dar ao luxo de recusar o que não quero até o ideal aparecer enquanto as contas chegam.

E qual seria esse ideal? Tenho listas de prazeres que fariam um trabalho ser bom. Tenho ideias e intuições sobre o que me deixaria feliz. Tenho plena consciência do mercado profissional que escolhi e das limitações e empecilhos que tais sonhos encontrariam.

Dentro do jornalismo sei o que quero, mas não sei se consigo. Fora do jornalismo não sei o que quero, muito menos se consigo ter forças para começar algo do zero. Tenho admirado, de perto, amigas que encontraram paixões arrebatadoras, largaram tudo, recomeçaram e, apesar das dificuldades, têm aquele brilho no olhar, aquela felicidade pelo domínio sobre suas vidas, seus amores, destinos e profissões. Invejo. Quero o mesmo para mim.

Hoje “acordei de sonhos intranquilos” e fiz listas mentais. Pesquisei sobre cursos. Pensei sobre minhas vontades. Decidi que quero falar sobre cinema, sobre séries, sobre mulheres (beijo Fabi!).

Quero fazer vídeos, reportagens, apresentar programas. Quero escrever meus livros, quem sabe até roteiros, de filmes e de viagens. Quero aprender a costurar, decorar, a fazer móveis e a pintar com aquerela. Quero falar francês. Quero o mundo todo. Mas posso não querer nada isso depois do almoço.

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Quando, onde e como

Há uma semana estive em Salvador. Decidi me esforçar, mudar hábitos e não fazer um ‘cronograma’ para os dias em que ficaria na cidade. Não deu certo. Sou uma pessoa de listas e culpa. Gosto de organizar tudo. Já fui acusada de não saber lidar bem quando o que planejo segue outro rumo. E provavelmente isso deveria ter sido mudado, não o uso do cronograma. Pois não me organizei, me perdi, o tempo ficou confuso, a tal culpa tomou conta e até hoje penso nisso. Porque, além de tudo, sou do tipo obsessiva. Sim, hoje é dia de pesar os defeitos. E como sou cheia de culpa, acho que tenho vários.

Choveu em São Paulo nos últimos dias. E há uma semana eu estava dentro do mar da Bahia. E deixo de lado a culpa para tentar entender o que tem sido incompreensível para mim nos últimos anos: qual é mesmo o meu lugar no mundo? Onde vou parar e sentir que é ali que devo ficar, onde devo passar o resto dos meus dias, onde posso montar uma casa e ter uma parede colorida com todos os quadros e desenhos que tenho guardados para essa ocasião? Mas será que sou esse tipo de pessoa? Do tipo que quer ficar em um lugar para o resto da vida? Que quer casar e ter filhos? Que quer segurança?

Eu gosto de segurança. Afinal, sou das listas, da culpa e da obsessão. Preciso me sentir segura já que me sinto insegura sobre absolutamente tudo (ou quase). Mas o que estou disposta a fazer para conseguir isso? Do que estou disposta a abrir mão? Quando devo pegar a contramão do que venho fazendo até agora para, enfim, descobrir qual o meu caminho?

Continuo perdida nessa segunda-feira chuvosa.

Baby e eu

Outro dia, numa noite qualquer, estava passeando pelos canais de TV tentando me distrair enquanto o sono não chegava. Eis que na MTV vi o anúncio do show de Baby Consuelo (ou seria “do Brasil”? Eu gosto de Consuelo). Fiquei curiosa porque, há um tempão, li vários comentários elogiosos sobre uma apresentação que ela fez em Salvador.

Então decidi acalmar meus dedos nervosos no controle remoto para ver e ouvir do que se tratava, com a esperança de que ela não demorasse muito para cantar A menina dança, música que me agrada bastante do clássico Acabou Chorare – disco dos Novos Baianos.

E para a minha grande surpresa me vi completamente hipnotizada por uma sequência de canções que me fez voltar, de uma maneira incrível, para minha infância. Eu não tinha ideia de como as músicas de Baby foram tão presentes na minha vida. E foram mesmo. Na verdade, foram de uma forma involuntária.

Desde pequena, quando meu pai me colocava para dormir, ele ligava o rádio baixinho e deixava lá, a noite inteira, para que eu dormisse escutando música. Sempre na Educadora (onde, muitos anos depois, trabalhei como estagiária e achava estranhíssimo conhecer pessoalmente aquelas pessoas – os locutores – com vozes tão familiares). Pois as músicas da ex-de Pepeu e mãe de pessoas com nomes esquisitos, pelo visto, tocavam muito naquela rádio.

Mas o mais interessante é que a nostalgia não veio apenas pelo meu antigo quarto, cama, travesseiro e aparelho de som que embalavam meu sono; eu tive sensações de finais de tarde à beira mar, com a pele queimada de tanto tomar sol durante o dia e o cheiro de maresia impregnado, tanto em mim quanto no ambiente. Ah, como eu sinto falta do cheiro de mar.

E, em uma noite dessas, escutando Seus Olhos, Telurica, Menino do Rio, Sem Pecado e Sem Juízo, me transportei para uma Salvador que me enche de saudades.

Obs: Consuelo, além de ter virado “do Brasil”, também se tornou evangélica; ela declarou por aí que foi Deus quem permitiu esse breve retorno para cantar seus antigos sucessos em alguns lugares do país. Imagino que o cachê tenha ido todo para o dízimo, claro.

Um tempo em casa

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Resolvi tirar um sabático. Infelizmente não é do tipo afastamento remunerado para refletir sobre vida e carreira. Não é apenas pela falta da remuneração. Vim refletir sobre a vida e a carreira em Salvador. Vim tentar colocar a cabeça em ordem e me dedicar por inteira a um projeto que tenho há anos e que há anos jogo para o canto.

Vim tentar estimular minha paciência e tolerância voltando a conviver no ambiente familiar do qual estou afastada há 5 anos e onde, de lá para cá, nunca passei mais de quatro dias. Agora serão dois meses e meio dividindo hábitos, relembrando irritações e buscando o lado zen que diariamente ouço que preciso encontrar.

Vim me sentir acolhida entre os iguais, recarregar meu sotaque, o dendê na veia e o cheiro de mar no ar. Vim usar o “lá ele”* por aí – como fiz recentemente com um vendedor de cerveja da praia – para ficar em êxtase por ter empregado perfeitamente a expressão e, melhor, ter sido compreendida.

Vim desviar dos buracos nas ruas e nas calçadas e xingar as administrações públicas que deixaram uma cidade incrivelmente linda ficar tão suja, acabada, descuidada.

Vim ficar mais baiana. Até depois do Carnaval.

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* Lá ele: expressão tipicamente baiana que só dá para explicar pessoalmente, com muitos exemplos e gestos. :)

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E a trilha sonora não poderia ser mais perfeita..

A cor da consciência

Ao contrário de muitas manifestações que li por aí no dia de hoje, não acho que existir um Feriado da Consciência Negra seja uma forma de exaltar o preconceito. Na verdade, nem entendo direito como as pessoas conseguiram chegar à essa conclusão.

Acho que, em um país racista como o Brasil, se a data ajudar a gerar discussão ou pelo menos que alguém páre e pense: “mas porque diabos precisa existir algo assim?”, já é válido.

Eu sou branca, nascida em Salvador, flha da mãe negra que, durante toda a minha infância foi confundida com minha babá. Eu também conseguia perceber a diferença na quantidade de colegas negros e brancos que estudaram nas escolas particulares em que estudei e vejo, claramente, a insegurança de muitos motoristas quando qualquer pessoa de pele negra passa perto de seus carros no meio do trânsito. Então, hipocrisia é dizer que preconceito não existe né?

Existem muitos e seria muito bonito que aparecessem feriados para cada um desses preconceitos tão presentes em discursos cotidianos e “despretensiosos” no Brasil. Ou se não fossem feriados, se fossem mais paradas, mais manifestações de rua que chamassem a atenção de milhões em um dia específico, sei lá. Não tenho solução. Mas não acho absurdo.

O absurdo, hoje, é que exista o tal feriado em cidades como São Paulo e não em Salvador onde mora a maior população negra no mundo fora da África. Realmente, não entendo.

E para finalizar, como trilha do dia, uma lindíssima música que faz com que toda a negritude que corre por minha veias (infelizmente não tive a sorte de ter na pele) exploda de emoção.