Publicado em Califórnia, Crise dos 30, Pensamentos

Eu e meu ukulele

Sou uma musicista frustrada. Estudei piano dos 8 aos 13 anos. Enquanto estudava piano, só queria tocar sax. Meu pai insistia no primeiro instrumento, afinal, eu já havia começado, tínhamos um em casa e ele é super completo para se ter uma boa formação musical.

Até que meu pai desistiu de insistir quando eu desisti de estudar. Queria que ele tivesse me obrigado. Na época, ele dizia que eu poderia continuar tocando, quem sabe entrar em alguma banda e até tentar viver de música. Por mais difícil que fosse, quer dizer, que é – segundo vários músicos que conheço -, acho que eu gostaria disso. Mas nunca saberei.

Eu era uma adolescente chata passando por uma fase complicada e continuar tocando piano não estava entre minhas prioridades, sejam lá quais eram na época. Claramente tais prioridades não fizeram uma grande diferença na minha vida, já que sequer lembro delas.

Mas gosto muito de música. Gosto de escutar e gosto de ser espectadora de música sendo feita e executada ao vivo. Adoro ir para shows, apesar da minha natureza caseira e diurna que sofre todas as vezes que precisa sair de casa à noite. Mas sempre que vejo uma boa apresentação sinto que o sacrifício valeu à pena. Acho fascinante quem sabe tocar instrumentos, quem sabe compôr, quem sabe fazer o que eu não fiz.

Pois, aproveitando minha vidinha tranquila em Davis com o tempo livre que quase não me sobra pelo tanto que quero fazer ao mesmo tempo, resolvi experimentar algo novo. Tudo começou assim: olhando a programação musical do Mondavi Center, casa de espetáculos incrível da universidade (Caetano Veloso se apresentou lá em 2014, pouco antes de eu chegar na cidade), me interessei pela The Ukulele Orchestra of Great Britain.

Vi uns vídeos no YouTube, peguei o marido pelo braço e fomos para uma noite divertidíssima com oito músicos fazendo versões de todo o tipo de música. As vozes eram lindas, o som era incrível e senso de humor fantástico (era quase uma apresentação de stand up comedy – só que sentados – entre as canções). Nem senti falta dos outros instrumentos.

Saí de lá encantada e botei na cabeça que queria aprender, mesmo sem nunca ter encostado em um instrumento de cordas antes. Para quem não sabe, o ukulele é um cavaquinho havaiano. Basicamente isso.

Eddie Vedder, do Pearl Jam, já gravou um disco inteiro só com ele; Paul McCartney o usava para tocar Something e homenagear George Harrison em seus shows (vi ao vivo e quase morri de emoção porque ela é uma das minhas músicas favoritas dos Beatles) e a atriz Zooey Deschanel também toca, charmosamente, no seu grupo She & Him. Achei que essas foram boas referências.

Dia desses estivemos com amigos em uma loja de instrumentos musicais em Sacramento. Namorei um ukulele mas achei caro. Não levei e fiquei com aquele arrependimentozinho constante, principalmente nos momentos de ócio, pensando que poderia estar aprendendo uma música nova naquele espaço de tempo.

Então, passeando pelas ruas do centro de Santa Cruz, cidade litorânea e surfística (essa palavra existe?) que conhecemos recentemente durante a visita da minha querida amiga Fabi, eis que decidi entrar em uma loja repleta de cavaquinhos – ops! – pendurados na parede. Levei.

Agora tenho lutado diariamente (usando esse blog) para tentar entender a lógica dessas cordas, tentar aprender esse dedilhado infernal que vai contra tudo o que aprendi na minha iniciação musical – nada de dedos alongados, como eu deveria ter ao tocar piano; tenho que acomodá-los todos encolhidos nos quadradinhos apertados para conseguir acordes simples mas que, para mim, parecem super complicados. Mas quando consigo, rio sozinha com a deliciosa sensação de ter tocado uma nota certa.

Ainda não sei tocar uma música sequer e tenho consciência de que o processo será lento mas, ao contrário da urgência que eu tinha enquanto adolescente que não me permitia degustar, me debruçar e esmiuçar o “fazer música”, agora transformo tal aprendizado em uma terapia. Nessas horas eu penso em como é bom amadurecer.

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Quando penso no Carnaval

Lembro de poucas fantasias: baiana, havaiana, melindrosa – que os meninos da rua diziam que era de índia por uma única pena cor de rosa do acessório da cabeça, e me deixavam arrasada por não entenderem o quão legal era ser uma melindrosa.

Lembro de bailinhos, confetes e serpentinas. Lembro claramente do gosto de papel dos confetes que eventualmente caíam na minha boca.

Lembro de um vinil, com um trio elétrico rodeado por pessoas na capa, que devia ser de Moraes Moreira e da família Macedo. Sempre, em todo o carnaval, eu acordava com as músicas desse disco tocando em casa.

Lembro de alguns momentos no centro da cidade, acompanhando o movimento das pessoas, sentada nas costas de alguém – provavelmente meu pai que sempre foi alto (um gigante pelo meu olhar na época). E lembro que eu gostava muito do Carnaval, muito mais do que do São João que, apesar dos vestidos quadriculados e dos fogos coloridos, me enchiam de pânico pelos barulhos das bombas e as queimaduras eventuais besuntadas de manteiga que só pioravam a situação.

Quando adolescente, acompanhei o fluxo natural das minhas amigas de escola e passei a frequentar a rua dentro de blocos, vestindo abadás e ‘segura’ por uma corda humana feita de pessoas (em sua imensa maioria negras) que precisavam estar ali, naquela situação, recebendo por noite muito menos o que eu gastava com água mineral e refrigerantes. Hoje eu me culpo: queria ter uma consciência social maior aos 15 anos que me fizesse protestar contra essa segregação moderna.

Foto que, infelizmente, não sei de quem é, mas mostra claramente o absurdo que os blocos 'com corda' fazem, separando brancos de negros no Carnaval da Bahia
Foto que, infelizmente, não sei de quem é, mas mostra claramente o absurdo que os blocos ‘com corda’ fazem, separando brancos de negros no Carnaval da Bahia

Me envergonho mas assumo que, apesar do meu eterno desconforto pela situação, participei durante muitos anos do grupo que podia pagar. Até que cansei. De olhar para os lados e ver os cordeiros como um muro em movimento, das músicas, das pessoas, do aperto, da violência, do assédio em forma de dedadas e tentativas forçadas de contato íntimo (não é fácil ser mulher no Carnaval baiano). Cansei de tudo. Trabalhei durante alguns anos seguidos na cobertura e fui embora. Longe da cidade não senti muita falta.

Mas fui apresentada ao Carnaval sem cordas. Onde você acompanha os trios elétricos que fazem música para quem não paga. Sem grandes apertos – afinal, são milhões de pessoas nas ruas, fazendo curvas, subindo ladeiras… o aperto sempre vai existir – e com uma tranquilidade que me emocionou de forma tal que meu coração foi totalmente capturado pela festa. Festa essa que, ao contrário do que muitos alardeiam, é popular.

Existem os espaços privados e os blocos que não te deixam passar pelas ruas? Existem! Mas também há uma infinidade de possibilidades para aqueles que não podem gastar um centavo e mesmo assim conseguem ver seus ídolos de perto, conseguem conhecer novos artistas, além de dançar e cantar junto com outras milhões de pessoas de diferentes classes sociais que, no dia a dia, levam vidas completamente opostas umas das outras.

Digo isso por experiência própria: é só olhar para os lados em um encontro de trios na Praça Castro Alves para perceber a beleza de estar ao lado de tanta gente diferente, dançando, cantando, se divertindo. Naquele momento, é só o que importa.

É claro que muitas coisas devem mudar. Para mim, a principal delas é a permanência do formato dos blocos. Não deveriam existir. Todos os trios elétricos deveriam ir para as ruas exclusivamente para o folião pipoca. E quem quiser tranquilidade, exclusividade e ar-condiconado, que fique nos camarotes comendo sushi e fugindo do suor.

Sou uma entusiasta do Carnaval da Bahia, que sofre quando está longe e explode de felicidade quando consegue cantar os versos da muita abaixo rodeada pela brisa do mar e por sotaques semelhantes ao meu.

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O som do meu feriado

É Natal e eu estou de plantão. Na verdade não quero falar nem do Natal e muito menos do plantão. Eu quero dizer que terminei há algumas semanas mais um livro de Neil Gaiman (já disse que me apaixonei perdidamente por ele e sequer li ‘Sandman’, seu grande clássico dos quadrinhos?).

E, entre tantas referências bacanudas em ‘Os Filhos de Anansi’, vez ou outra os personagens citavam a música ‘Under the Boardwalk’ que eu não conhecia. E sempre esquecia de procurar. Pois hoje lembrei. E achei incrível.

Para vocês, um presentinho de Natal:

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Baby e eu

Outro dia, numa noite qualquer, estava passeando pelos canais de TV tentando me distrair enquanto o sono não chegava. Eis que na MTV vi o anúncio do show de Baby Consuelo (ou seria “do Brasil”? Eu gosto de Consuelo). Fiquei curiosa porque, há um tempão, li vários comentários elogiosos sobre uma apresentação que ela fez em Salvador.

Então decidi acalmar meus dedos nervosos no controle remoto para ver e ouvir do que se tratava, com a esperança de que ela não demorasse muito para cantar A menina dança, música que me agrada bastante do clássico Acabou Chorare – disco dos Novos Baianos.

E para a minha grande surpresa me vi completamente hipnotizada por uma sequência de canções que me fez voltar, de uma maneira incrível, para minha infância. Eu não tinha ideia de como as músicas de Baby foram tão presentes na minha vida. E foram mesmo. Na verdade, foram de uma forma involuntária.

Desde pequena, quando meu pai me colocava para dormir, ele ligava o rádio baixinho e deixava lá, a noite inteira, para que eu dormisse escutando música. Sempre na Educadora (onde, muitos anos depois, trabalhei como estagiária e achava estranhíssimo conhecer pessoalmente aquelas pessoas – os locutores – com vozes tão familiares). Pois as músicas da ex-de Pepeu e mãe de pessoas com nomes esquisitos, pelo visto, tocavam muito naquela rádio.

Mas o mais interessante é que a nostalgia não veio apenas pelo meu antigo quarto, cama, travesseiro e aparelho de som que embalavam meu sono; eu tive sensações de finais de tarde à beira mar, com a pele queimada de tanto tomar sol durante o dia e o cheiro de maresia impregnado, tanto em mim quanto no ambiente. Ah, como eu sinto falta do cheiro de mar.

E, em uma noite dessas, escutando Seus Olhos, Telurica, Menino do Rio, Sem Pecado e Sem Juízo, me transportei para uma Salvador que me enche de saudades.

Obs: Consuelo, além de ter virado “do Brasil”, também se tornou evangélica; ela declarou por aí que foi Deus quem permitiu esse breve retorno para cantar seus antigos sucessos em alguns lugares do país. Imagino que o cachê tenha ido todo para o dízimo, claro.

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Muito amor para quem é de amor

Há algum tempo escutei os primeiros discos de Marcelo Jeneci e Tulipa Ruiz, por simpatizar com as vozes e com os trabalhos que os dois desenvolvem. Gostei muito de algumas músicas e, de outras, nem tanto. Não se tornaram CD’s da vida que eu escolheria para levar numa ilha deserta com falta de espaço no ipod e pouca bateria, sabe?

Mas ontem assisti a um especial sobre o cantor na VH1, chamado Música.doc, se não me engano. E aí o amor das músicas dele tomou conta de mim, tanto que fui dormir e acordei pensando em algumas delas.

Fora Feito Pra Sonhar que parece ter virado hino de todos os pedidos de casamento e que faz com que qualquer pessoa desiludida tenha vontade de casar num domingo, na praia, no sol, no mar, minha preferida é uma música que ainda não foi gravada, em parceria dele com Tulipa.

Explodam de amor comigo escutando Dia a Dia, Lado a Lado.

Ah, esse post foi inspirado na minha querida Maria e suas trilhas sonoras diárias no bloco de notas.