Paloma Guedes

De tudo um pouco sobre o penso, o que faço, o que falo…

Essa tal ansiedade — 06/08/2015

Essa tal ansiedade

Pensamentos descontrolados, coração acelerado, estômago revirado. É mais ou menos por aí. Os ansiosos crônicos me entenderão. É difícil manter o foco, o equilíbrio e a sanidade quando a expectativa sobre alguma coisa, qualquer coisa, tira sua paz. Sou ansiosa com tudo, sobre tudo, por tudo. É saudável? Claro que não. Tento controlar? Claro que sim. Consigo? Aí já é outra história…

Em momentos de grandes mudanças o mundo parece seguir uma rotação diferente da minha. É como se tudo funcionasse em marcha lenta quando eu mais preciso de respostas imediatas. É uma urgência sem fim por tudo; é um buraco imenso, escuro e sem fundo (dramática, eu? jamais!).

Como ansiosa eu deveria optar por um estilo de vida mais estável. Sem grandes mudanças, sem grandes surpresas, sem grandes emoções. Faço o oposto. Mudo o tempo todo: de emprego, de casa, de cidade, de país. Tá, esse “o tempo todo” foi meio que licença poética, mas nos últimos anos passei por MUITAS mudanças e, consequentemente, muitas crises de ansiedade.

E agora estou prestes a mudar de novo. De começar tudo de novo, praticamente do zero. E aí vem o medo, o pânico, a insegurança, a incerteza. Não sou de roer as unhas e nem tenho grandes vícios (TV, talvez?). A ansiedade tem sido descontada toda na comida, o que é um problema.

Seria tão melhor se, estando ansiosa, eu escrevesse descontroladamente, ou ficasse obcecada por aprender a cozinhar, ou pintar, ou costurar, ou ler, ou correr, ou nadar. Mas não; eu como. E engordo. E fico ansiosa pelo peso e pela saúde. E pelas mudanças. E pela vida.

Todas as vezes que converso com meu pai ele se despede de mim com duas e irritantes palavras: “atitude zen”. Só de pensar em “que diabos significa isso?” e “que diabos eu deveria fazer para virar zen?” já fico ansiosa. Sou um caso perdido?

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Quando estive em um festival de balões — 29/07/2015

Quando estive em um festival de balões

Sou meio pessimista e meio otimista. Pessimista porque acho que viver é extremamente difícil e diariamente temos que enfrentar mais momentos ruins do que bons. Otimista porque acredito que esses momentos bons, que nos trazem grandes ou pequenas alegrias (como o prazer de Amélie Poulain* em enfiar a mão no saco de cereais quando ninguém está vendo) fazem essa tarefa tão difícil de viver valer a pena.

Pensando nisso, lembrei de uma situação de sonho que vivi há algumas semanas. Aquele momento que de tão lindo, tão perfeito, parece ter sido criado no roteiro que encenamos quando fechamos os olhos – e que até nos sonhos não é fácil de alcançar, afinal, os pesadelos também existem (e falou o lado pessismista).

Pois bem. Era sábado e após um jantar na noite anterior que me fez dormir pouquíssimas horas, acordei às 3h30 da manhã. Não acordei direito; me arrumei e segui para a van ainda nos braços de Morfeu (que agora só consigo visualizar na forma charmosa da ilustração de Sandman**).

Após algumas horas de cochilos, conversas, petiscos, nascer do sol californiano na estrada e uma reunião de brasileiros de diferentes sotaques reunidos por um colombiano abrasileirado, chegamos por volta das 6h30 na cidade de Windsor para o Sonoma County Hot Air Balloon Classic.

Todas as características de vida real como a dificuldade de encontrar estacionamento, a caminhada no frio, o ordinário ato de entregar o ingresso para a recepcionista e o hino americano que tocava distante para marcar a abertura do evento desapareceram no minuto em que vi o primeiro balão colorido tomar forma através do ar quente que saía de uma forte e intensa chama amarela.

Eu nunca tinha visto um balão de perto e realmente fiquei emocionada com aquela imagem. Afinal era um balão lindo, subindo, subindo e subindo em direção ao infinito céu azul (e branco porque várias nuvens se meteram no meu cenário).

Não lembro o que senti na primeira vez que fui a um parque de diversões ou que vi o mar e entrei nele pela primeira vez; mas acho que as sensações devem ter sido parecidas. Me senti como uma criança, excitada pelo diferente, pelo bonito, pelo colorido. 

Logo depois que o primeiro balão decolou (seria essa a nomenclatura certa? será que balões decolam como aviões?), a beleza só aumentou: vários outros começaram a ser inflados ao mesmo tempo.

Aí sim meu cenário de fantasia ficou completo e eu senti como se nunca mais na vida fosse presenciar algo tão absurdamente bonito. Claro que espero que essa sensação se repita outras tantas vezes na minha vida, mas confesso que esse “nunca mais” fez com que o momento assumisse uma intensidade incrível. Não chorei. Mas poderia. Sorri muito. E contemplei muito também.

Mas esse foi um momento de êxtase que nem durou tanto assim. O festival de Sonoma teve uns 30 balões. Depois que eles subiram e ficaram passeando pelo ar, depois de ver tantas cores e formas diferentes no céu da Califórnia, depois que o pescoço começou a doer e o encantamento cedeu o lugar para o “já tá tudo meio igual, não?”, cerca de duas horas depois da chegada já estávamos prontos para sair dali.

Afinal, o mais importante não é a duração do momento de sonho e sim a sensação boa de ter presenciado, de ter participado daquilo que marca o resto da sua vida – mesmo que a lembrança do sentimento desapareça, a memória das imagens continua. E foi assim o dia em que estive em um festival de balões.

Eu e Lia, companheira de deslumbramento
Eu e Lia, companheira de deslumbramento

As fotos são de Rodrigo Cerqueira.

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*O Fabuloso Destino de Amélie Poulin é um dos filmes da minha vida. Acho maravilhoso e recomendo para que, quem ainda não viu, se faça esse favor e assista. É lindo.

** Sandman é uma série incrível de quadrinhos do britânico Neil Gaiman (que lançou vários romances que eu amo e já escreveu roteiros para episódios da série Doctor Who, uma das minhas preferidas) e que tem como personagem principal Morfeu, o “deus” dos sonhos.

Para elas — 27/07/2015

Para elas

Numa sexta à noite reunimos quatro casais para jantar: os brasileiros, os chilenos anfitriões, os noruegueses e os israelenses. As mulheres – que se conheceram nas aulas de inglês – de nacionalidades, idades, culturas e vidas diferentes, se tornaram amigas e descobriram tanto em comum que a amizade foi simplesmente inevitável.

E naquela noite elas finalmente conseguiram reunir os maridos, protagonistas de tantas e tantas conversas, em um lugar só. Homens completamente diferentes que tinham duas coisas em comum (pelos menos essas duas evidentes): a ligação com a universidade californiana e a amizade das esposas.

Essa possibilidade de conhecer pessoas de todos os lugares do mundo que a experiência de morar fora do Brasil me proporcionou foi incrível e impagável. Mas não só conhecer: conviver, criar laços. Estabelecer uma comunicação possível além das nossas línguas nativas; estabelecer uma relação de amizade além das fronteiras.

Não sou daquelas que acredita no “um milhão de amigos” para alcançar a felicidade; sigo cada vez mais no oposto dessa afirmação. Tenho poucos e bons. Mas também não é por isso que viro a cara quando a vida me apresenta gente querida.

Afinal é tão bom almoçar junto todas as quartas-feiras, sair para fazer compras, não parar de falar por um segundo durante as aulas, rir até a barriga doer, tomar café, pintar as unhas, entender a outra mesmo com os terríveis erros de gramática e os sotaques diferentes, conversar sobre questões difíceis, respeitar a opinião oposta à sua e estar ali oferecendo o abraço, não apenas nos momentos de alegria, mas de profunda confusão e tristeza. O amor, minha gente, é universal.

Mando aqui um beijo muito carinhoso para Einav, Paulina e Liv, que não conseguirão entender esse texto em português, mas sempre terão um lugar muito especial no meu coração.

Deixe a tristeza chegar — 16/07/2015

Deixe a tristeza chegar

sadnessUma das coisas que mais gostei de Inside Out* (Divertida Mente, em português), animação da Pixar que vi há pouco tempo no cinema, foi a importância dada para a tristeza. Achei o filme todo fofo, engraçado e inteligente. Mas, principalmente por ser feito para crianças e adolescentes, acho simplesmente genial deixar claro que sim, você tem que ser feliz mas também é importante se permitir ser triste.

Porque, convenhamos, existe uma pressão de “felicidade extrema” muito cruel, principalmente quando você é adolescente e que não passa na fase adulta.

Eu acho de uma superficialidade imensa amizades baseadas em animação de boteco. Tá, serei menos radical: amizades superficiais de boteco são legais para aquele momento ali; é muito fácil ser amigo quando todo mundo enche a cara, dá risada e abraça a garrafa de cerveja junto.

Mas naquele momento de dor que às vezes demora para passar e você só precisa que alguém segure sua mão e te passe a reconfortante sensação de que estará ali quando você precisar, com paciência, uma panela de brigadeiro e sem julgamentos, isso sim, não é fácil. Mas quando acontece, aquece o coração.

Inside Out me tocou muito por isso: não é fácil ter a consciência de que, às vezes, a tristeza ajuda e muito como um primeiro passo para o auto-conhecimento e a aceitação do que está acontecendo com você. E é a partir daí que vem o trabalho para melhorar.

Não estou levantando aqui a bandeira de que você precisa ser deprê para ser feliz, não é isso. O que acho problemático é abafar a tristeza para tentar se convencer de uma tal felicidade que muitas vezes é frágil demais.

Por isso, quando for necessário, ser permita ser triste; se permita sentir algo ruim, tentar entender porque você está se sentindo daquele jeito e, a partir daí, correr atrás da melhor forma para ficar bem.

Quem dera eu soubesse o segredo da felicidade (esse texto tá super “auto-ajuda”, né?). As pessoas que me conhecem de verdade sabem como a tristeza e a euforia andam de mãos dadas na minha cabeça e coração. Mas por isso mesmo sigo tentando, de maneiras tortas e eventualmente acertadas, fazer com que minhas Sadness e Joy sigam em harmonia. Um dia.. quem sabe.

* Ah, para quem não viu e não sabe nada sobre, o filme mostra a personificação de alguns sentimentos: Joy (Alegria), Sadness (Tristeza), Fear (Medo), Anger (Raiva) e Disgust (Repulsa) dentro da cabeça de uma garota que muda de cidade e passa por uma fase dificil. É fofo e vale muito a pena ser visto.

Yosemite — 23/05/2015

Yosemite

Há um tempo eu vinha falando para o marido que precisávamos aproveitar algum fim de semana e ir conhecer Yosemite. O parque, que fica a umas 3h30 de Davis, sempre foi referência de um dos lugares mais lindos da Califórnia (se pá, dos Estados Unidos).

No inverno fica meio complicado de ir porque várias estradas e trilhas são fechadas por conta da neve; existem muitas restrições e precauções que devem ser tomadas. Gostamos de aventura, mas nem tanto.

Ouvimos dizer também que no verão o negócio também é complicado: o parque fica tão lotado, mas tão lotado, que é impossível aproveitar as paisagens sem praticamente entrar em luta corporal com a turistada (categoria na qual estou inclusa) por um espacinho bom pra foto.

Pois bem, aproveitamos que um amigo querido viajou e deixou o carro conosco (não pagar aluguel de carro é uma benção divina em qualquer viagem aqui – beijo Daniel!), e que um casal querido de amigos, Camila e Leandro, iria para lá de qualquer jeito, e nos jogamos estrada.

A previsão era de tempestade na noite anterior da nossa viagem. Com direito à neve e tudo. Mas, no fim das contas, fora uma chuvinha desagradável no primeiro dia e uma estrada fechada que não me deixou conhecer o Tenaya Lake, o clima não foi dos piores. Fez frio, mas com as andanças também fez calor. Tivemos paisagens bonitas nubladas e paisagens bonitas com sol.

O ideal é achar hospedagem dentro do parque, que é imenso. Mas ouvi dizer que esses hotéis e pousadas são concorridíssimos e você precisa de meses e meses de antecedência para conseguir um quarto. Portanto, as cidades próximas são a solução. E quando digo próximas, que sejam realmente próximas.

Dou um exemplo do que aconteceu: Leandro e Camila reservaram um quarto num hotel em Oakdale, pegando como referência a entrada do parque. Na verdade, da entrada do parque até Yosemite Valley, que é de onde você parte para todas as atrações legais, é quase uma hora de carro. De Oakdale até a entrada, seriam quase duas horas, por uma estrada extremamente sinuosa em montanhas altas com abismos assustadores (óbvio que nem eles e nem nós sabíamos disso quando a reserva foi feita).

Resumindo: não é um bom negócio você se hospedar tão longe – ainda mais com uma estrada difícil – principalmente se a ideia é voltar pelo menos duas vezes no parque, em dois dias diferentes.

Depois do desespero da tal estrada sinuosa – nem passamos pela tal Oakdale – paramos na primeira cidade fofa que apareceu e que, segundo o GPS, ficava a 60 quilômetros do parque. Em Gloveland desfizemos a reserva do hotel antigo e procuramos vaga em algo por ali mesmo. Pagamos, por uma diária, o preço de duas previamente reservadas. Mas sinceramente, valeu cada centavo.

Ficamos em uma casa com três quartos em um condomínio fechado. Na verdade procuramos quarto no Hotel Charlotte e a recepcionista simpática (de Davis, claro) nos ofereceu essa opção. Ela sairia pelo mesmo preço (quase 200 dólares com as taxas) que um quarto duplo em outro hotel onde perguntamos. Casa bacanuda e cheia de espaço, pra quê melhor?

Inclusive, caso você fique ou se só passar por Groveland, não deixe de dar uma paradinha no Iron Door Saloon. Desde 1852 fazendo a felicidade dos pinguços locais e turistas, parece ser o bar mais antigo da Califórnia – segundo propaganda própria – e, apesar de não ter uma comida grande coisa, o ambiente legal compensa.

A decoração é uma loucura: são notas de dólar coladas no tetos, cabeças de bichos nas paredes e um monte de tranqueiras por todos os lados. Demos sorte, já que era sexta a noite, de pegar um show ao vivo da banda The Penetrators.

Apesar da safadeza da alcunha, era mais uma simpática banda dos “nativos” de meia idade que tocava clássicos pros amigos que íam lá dançar nos finais de semana. Até eu dancei. O marido me tirou para dançar ao som de My Girl. Quem o conhece sabe que isso é um milagre. Resumindo: morri de amor e de amores pelo Iron Door.

Voltando ao Yosemite National Park, a viagem foi curta e, no total, passamos apenas um dia e meio lá. Muito pouco. Acho que o legal é ter tempo para aproveitar o máximo de trilhas que você aguentar. No meu caso, que sou sedentária, uma por dia já tá ótimo. Resumindo, uma semana seria pouco. Mas, ainda assim, foi uma experiência incrível.

As montanhas de pedras são escandalosamente impressionantes, tipo a muralha de Game of Thrones sem neve, sabe? Imensas, algumas com árvores, outras com cachoeiras… paisagens de tirar o fôlego por todos os lados.

Dentro do parque existem ônibus que levam os visitantes para vários pontos diferentes de onde você pode começar as trilhas. Pegamos um no primeiro dia e afirmo que o serviço funcionou muito bem. Não esperamos mais que 10 minutos entre um shuttle e outro.

Vale muito a pena largar o carro nos estacionamentos gratuitos e seguir esses percursos. Agora na primavera não existem muitas opções, mas no mapa vi que eles disponibilizam outras linhas no verão – provavelmente porque a demanda é maior e porque mais lugares estão liberados por causa do clima.

Para entrar no parque, pagamos 30 dólares por carro. Esse valor te dá um ingresso válido por uma semana. Dica amiga: leve toda a comida que você puder. Foi bem difícil encontrar lanchonetes e restaurantes abertos e quando encontramos, tudo custava os olhos da cara mais uma perna e dois rins. Ah, e os celulares (T-Mobile) simplesmente não funcionaram: nem sinal de telefone, nem o 4G de internet. Nadica de nada.

Outra dica super importante: Yosemite é um parque. Do tipo “cheio de natureza”. Você vai lá para fazer trilhas. Significa: andar muito, muito e muito. Portanto, não façam como eu que, temendo o frio, levei apenas meu par de botas. Não gosto, acho feio, mas não tem jeito: tem que ir com tênis de fazer exercícios. Seus pés agradecerão completamente após um dia inteiro de andanças. Digo isso, inclusive, por uma questão de segurança.

A única grande trilha que fizemos foi até a Vernal Fall, uma cachoeira incrível. Quase tive um ataque cardíaco de tanto subir e descer montanha, mas sobrevivi. Fato é que você pode chegar até o topo da cachoeira, seguindo pela lateral, por uma escadinha de pedras.

O problema é que esse caminho é molhado e botas bonitas e pouco confortáveis não têm a menor aderência para esse tipo de situação. Entenderam meu ponto? Tênis, por favor, sempre tênis.

Ah, e se você tiver labirintite, não recomendo seguir de carro até o Glacier Point, de lá ir em direção às sequóias gigantes e sair do parque pela cidade de Fresno. Eu, no banco no carona, fiquei tonta com tantas curvas nas estradas que eventualmente ficavam estreitíssimas. Sorte que o marido é bom motorista.

Fiquei maravilhada com o parque, mas frustrada porque não vi nenhum urso. Acho que vi um, de longe, enquanto estava no carro. Mas podia ser um tronco de àrvore também, vai saber, era tanta curva e tanta tontura que posso ter tido uma alucinação.

Pelo menos aprendi que, caso algum aparecesse nas áreas mais movimentadas, deveríamos fazer o máximo de barulho para espantá-lo. Mas se encontrássemos algum no meio da mata, em seu habitat selvagem, o melhor é ficar quieto e manter distância, devagar e sem barulho.

Vivendo e aprendendo minha gente. Não vi nenhum, mas me sinto expert no que tenho que fazer caso veja um urso por aí. Nunca se sabe, né?

O único urso que achei foi na loja de souvenirs
O único urso que achei foi na loja de souvenirs