Publicado em Crise dos 30, Pensamentos

Essa tal ansiedade

Pensamentos descontrolados, coração acelerado, estômago revirado. É mais ou menos por aí. Os ansiosos crônicos me entenderão. É difícil manter o foco, o equilíbrio e a sanidade quando a expectativa sobre alguma coisa, qualquer coisa, tira sua paz. Sou ansiosa com tudo, sobre tudo, por tudo. É saudável? Claro que não. Tento controlar? Claro que sim. Consigo? Aí já é outra história…

Em momentos de grandes mudanças o mundo parece seguir uma rotação diferente da minha. É como se tudo funcionasse em marcha lenta quando eu mais preciso de respostas imediatas. É uma urgência sem fim por tudo; é um buraco imenso, escuro e sem fundo (dramática, eu? jamais!).

Como ansiosa eu deveria optar por um estilo de vida mais estável. Sem grandes mudanças, sem grandes surpresas, sem grandes emoções. Faço o oposto. Mudo o tempo todo: de emprego, de casa, de cidade, de país. Tá, esse “o tempo todo” foi meio que licença poética, mas nos últimos anos passei por MUITAS mudanças e, consequentemente, muitas crises de ansiedade.

E agora estou prestes a mudar de novo. De começar tudo de novo, praticamente do zero. E aí vem o medo, o pânico, a insegurança, a incerteza. Não sou de roer as unhas e nem tenho grandes vícios (TV, talvez?). A ansiedade tem sido descontada toda na comida, o que é um problema.

Seria tão melhor se, estando ansiosa, eu escrevesse descontroladamente, ou ficasse obcecada por aprender a cozinhar, ou pintar, ou costurar, ou ler, ou correr, ou nadar. Mas não; eu como. E engordo. E fico ansiosa pelo peso e pela saúde. E pelas mudanças. E pela vida.

Todas as vezes que converso com meu pai ele se despede de mim com duas e irritantes palavras: “atitude zen”. Só de pensar em “que diabos significa isso?” e “que diabos eu deveria fazer para virar zen?” já fico ansiosa. Sou um caso perdido?

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Publicado em Califórnia, Pensamentos

Quando estive em um festival de balões

Sou meio pessimista e meio otimista. Pessimista porque acho que viver é extremamente difícil e diariamente temos que enfrentar mais momentos ruins do que bons. Otimista porque acredito que esses momentos bons, que nos trazem grandes ou pequenas alegrias (como o prazer de Amélie Poulain* em enfiar a mão no saco de cereais quando ninguém está vendo) fazem essa tarefa tão difícil de viver valer a pena.

Pensando nisso, lembrei de uma situação de sonho que vivi há algumas semanas. Aquele momento que de tão lindo, tão perfeito, parece ter sido criado no roteiro que encenamos quando fechamos os olhos – e que até nos sonhos não é fácil de alcançar, afinal, os pesadelos também existem (e falou o lado pessismista).

Pois bem. Era sábado e após um jantar na noite anterior que me fez dormir pouquíssimas horas, acordei às 3h30 da manhã. Não acordei direito; me arrumei e segui para a van ainda nos braços de Morfeu (que agora só consigo visualizar na forma charmosa da ilustração de Sandman**).

Após algumas horas de cochilos, conversas, petiscos, nascer do sol californiano na estrada e uma reunião de brasileiros de diferentes sotaques reunidos por um colombiano abrasileirado, chegamos por volta das 6h30 na cidade de Windsor para o Sonoma County Hot Air Balloon Classic.

Todas as características de vida real como a dificuldade de encontrar estacionamento, a caminhada no frio, o ordinário ato de entregar o ingresso para a recepcionista e o hino americano que tocava distante para marcar a abertura do evento desapareceram no minuto em que vi o primeiro balão colorido tomar forma através do ar quente que saía de uma forte e intensa chama amarela.

Eu nunca tinha visto um balão de perto e realmente fiquei emocionada com aquela imagem. Afinal era um balão lindo, subindo, subindo e subindo em direção ao infinito céu azul (e branco porque várias nuvens se meteram no meu cenário).

Não lembro o que senti na primeira vez que fui a um parque de diversões ou que vi o mar e entrei nele pela primeira vez; mas acho que as sensações devem ter sido parecidas. Me senti como uma criança, excitada pelo diferente, pelo bonito, pelo colorido. 

Logo depois que o primeiro balão decolou (seria essa a nomenclatura certa? será que balões decolam como aviões?), a beleza só aumentou: vários outros começaram a ser inflados ao mesmo tempo.

Aí sim meu cenário de fantasia ficou completo e eu senti como se nunca mais na vida fosse presenciar algo tão absurdamente bonito. Claro que espero que essa sensação se repita outras tantas vezes na minha vida, mas confesso que esse “nunca mais” fez com que o momento assumisse uma intensidade incrível. Não chorei. Mas poderia. Sorri muito. E contemplei muito também.

Mas esse foi um momento de êxtase que nem durou tanto assim. O festival de Sonoma teve uns 30 balões. Depois que eles subiram e ficaram passeando pelo ar, depois de ver tantas cores e formas diferentes no céu da Califórnia, depois que o pescoço começou a doer e o encantamento cedeu o lugar para o “já tá tudo meio igual, não?”, cerca de duas horas depois da chegada já estávamos prontos para sair dali.

Afinal, o mais importante não é a duração do momento de sonho e sim a sensação boa de ter presenciado, de ter participado daquilo que marca o resto da sua vida – mesmo que a lembrança do sentimento desapareça, a memória das imagens continua. E foi assim o dia em que estive em um festival de balões.

Eu e Lia, companheira de deslumbramento
Eu e Lia, companheira de deslumbramento

As fotos são de Rodrigo Cerqueira.

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*O Fabuloso Destino de Amélie Poulin é um dos filmes da minha vida. Acho maravilhoso e recomendo para que, quem ainda não viu, se faça esse favor e assista. É lindo.

** Sandman é uma série incrível de quadrinhos do britânico Neil Gaiman (que lançou vários romances que eu amo e já escreveu roteiros para episódios da série Doctor Who, uma das minhas preferidas) e que tem como personagem principal Morfeu, o “deus” dos sonhos.

Publicado em Califórnia, Pensamentos

Para elas

Numa sexta à noite reunimos quatro casais para jantar: os brasileiros, os chilenos anfitriões, os noruegueses e os israelenses. As mulheres – que se conheceram nas aulas de inglês – de nacionalidades, idades, culturas e vidas diferentes, se tornaram amigas e descobriram tanto em comum que a amizade foi simplesmente inevitável.

E naquela noite elas finalmente conseguiram reunir os maridos, protagonistas de tantas e tantas conversas, em um lugar só. Homens completamente diferentes que tinham duas coisas em comum (pelos menos essas duas evidentes): a ligação com a universidade californiana e a amizade das esposas.

Essa possibilidade de conhecer pessoas de todos os lugares do mundo que a experiência de morar fora do Brasil me proporcionou foi incrível e impagável. Mas não só conhecer: conviver, criar laços. Estabelecer uma comunicação possível além das nossas línguas nativas; estabelecer uma relação de amizade além das fronteiras.

Não sou daquelas que acredita no “um milhão de amigos” para alcançar a felicidade; sigo cada vez mais no oposto dessa afirmação. Tenho poucos e bons. Mas também não é por isso que viro a cara quando a vida me apresenta gente querida.

Afinal é tão bom almoçar junto todas as quartas-feiras, sair para fazer compras, não parar de falar por um segundo durante as aulas, rir até a barriga doer, tomar café, pintar as unhas, entender a outra mesmo com os terríveis erros de gramática e os sotaques diferentes, conversar sobre questões difíceis, respeitar a opinião oposta à sua e estar ali oferecendo o abraço, não apenas nos momentos de alegria, mas de profunda confusão e tristeza. O amor, minha gente, é universal.

Mando aqui um beijo muito carinhoso para Einav, Paulina e Liv, que não conseguirão entender esse texto em português, mas sempre terão um lugar muito especial no meu coração.

Publicado em Cinema, Pensamentos

Deixe a tristeza chegar

sadnessUma das coisas que mais gostei de Inside Out* (Divertida Mente, em português), animação da Pixar que vi há pouco tempo no cinema, foi a importância dada para a tristeza. Achei o filme todo fofo, engraçado e inteligente. Mas, principalmente por ser feito para crianças e adolescentes, acho simplesmente genial deixar claro que sim, você tem que ser feliz mas também é importante se permitir ser triste.

Porque, convenhamos, existe uma pressão de “felicidade extrema” muito cruel, principalmente quando você é adolescente e que não passa na fase adulta.

Eu acho de uma superficialidade imensa amizades baseadas em animação de boteco. Tá, serei menos radical: amizades superficiais de boteco são legais para aquele momento ali; é muito fácil ser amigo quando todo mundo enche a cara, dá risada e abraça a garrafa de cerveja junto.

Mas naquele momento de dor que às vezes demora para passar e você só precisa que alguém segure sua mão e te passe a reconfortante sensação de que estará ali quando você precisar, com paciência, uma panela de brigadeiro e sem julgamentos, isso sim, não é fácil. Mas quando acontece, aquece o coração.

Inside Out me tocou muito por isso: não é fácil ter a consciência de que, às vezes, a tristeza ajuda e muito como um primeiro passo para o auto-conhecimento e a aceitação do que está acontecendo com você. E é a partir daí que vem o trabalho para melhorar.

Não estou levantando aqui a bandeira de que você precisa ser deprê para ser feliz, não é isso. O que acho problemático é abafar a tristeza para tentar se convencer de uma tal felicidade que muitas vezes é frágil demais.

Por isso, quando for necessário, ser permita ser triste; se permita sentir algo ruim, tentar entender porque você está se sentindo daquele jeito e, a partir daí, correr atrás da melhor forma para ficar bem.

Quem dera eu soubesse o segredo da felicidade (esse texto tá super “auto-ajuda”, né?). As pessoas que me conhecem de verdade sabem como a tristeza e a euforia andam de mãos dadas na minha cabeça e coração. Mas por isso mesmo sigo tentando, de maneiras tortas e eventualmente acertadas, fazer com que minhas Sadness e Joy sigam em harmonia. Um dia.. quem sabe.

* Ah, para quem não viu e não sabe nada sobre, o filme mostra a personificação de alguns sentimentos: Joy (Alegria), Sadness (Tristeza), Fear (Medo), Anger (Raiva) e Disgust (Repulsa) dentro da cabeça de uma garota que muda de cidade e passa por uma fase dificil. É fofo e vale muito a pena ser visto.

Publicado em Califórnia, Crise dos 30, Pensamentos

Eu e meu ukulele

Sou uma musicista frustrada. Estudei piano dos 8 aos 13 anos. Enquanto estudava piano, só queria tocar sax. Meu pai insistia no primeiro instrumento, afinal, eu já havia começado, tínhamos um em casa e ele é super completo para se ter uma boa formação musical.

Até que meu pai desistiu de insistir quando eu desisti de estudar. Queria que ele tivesse me obrigado. Na época, ele dizia que eu poderia continuar tocando, quem sabe entrar em alguma banda e até tentar viver de música. Por mais difícil que fosse, quer dizer, que é – segundo vários músicos que conheço -, acho que eu gostaria disso. Mas nunca saberei.

Eu era uma adolescente chata passando por uma fase complicada e continuar tocando piano não estava entre minhas prioridades, sejam lá quais eram na época. Claramente tais prioridades não fizeram uma grande diferença na minha vida, já que sequer lembro delas.

Mas gosto muito de música. Gosto de escutar e gosto de ser espectadora de música sendo feita e executada ao vivo. Adoro ir para shows, apesar da minha natureza caseira e diurna que sofre todas as vezes que precisa sair de casa à noite. Mas sempre que vejo uma boa apresentação sinto que o sacrifício valeu à pena. Acho fascinante quem sabe tocar instrumentos, quem sabe compôr, quem sabe fazer o que eu não fiz.

Pois, aproveitando minha vidinha tranquila em Davis com o tempo livre que quase não me sobra pelo tanto que quero fazer ao mesmo tempo, resolvi experimentar algo novo. Tudo começou assim: olhando a programação musical do Mondavi Center, casa de espetáculos incrível da universidade (Caetano Veloso se apresentou lá em 2014, pouco antes de eu chegar na cidade), me interessei pela The Ukulele Orchestra of Great Britain.

Vi uns vídeos no YouTube, peguei o marido pelo braço e fomos para uma noite divertidíssima com oito músicos fazendo versões de todo o tipo de música. As vozes eram lindas, o som era incrível e senso de humor fantástico (era quase uma apresentação de stand up comedy – só que sentados – entre as canções). Nem senti falta dos outros instrumentos.

Saí de lá encantada e botei na cabeça que queria aprender, mesmo sem nunca ter encostado em um instrumento de cordas antes. Para quem não sabe, o ukulele é um cavaquinho havaiano. Basicamente isso.

Eddie Vedder, do Pearl Jam, já gravou um disco inteiro só com ele; Paul McCartney o usava para tocar Something e homenagear George Harrison em seus shows (vi ao vivo e quase morri de emoção porque ela é uma das minhas músicas favoritas dos Beatles) e a atriz Zooey Deschanel também toca, charmosamente, no seu grupo She & Him. Achei que essas foram boas referências.

Dia desses estivemos com amigos em uma loja de instrumentos musicais em Sacramento. Namorei um ukulele mas achei caro. Não levei e fiquei com aquele arrependimentozinho constante, principalmente nos momentos de ócio, pensando que poderia estar aprendendo uma música nova naquele espaço de tempo.

Então, passeando pelas ruas do centro de Santa Cruz, cidade litorânea e surfística (essa palavra existe?) que conhecemos recentemente durante a visita da minha querida amiga Fabi, eis que decidi entrar em uma loja repleta de cavaquinhos – ops! – pendurados na parede. Levei.

Agora tenho lutado diariamente (usando esse blog) para tentar entender a lógica dessas cordas, tentar aprender esse dedilhado infernal que vai contra tudo o que aprendi na minha iniciação musical – nada de dedos alongados, como eu deveria ter ao tocar piano; tenho que acomodá-los todos encolhidos nos quadradinhos apertados para conseguir acordes simples mas que, para mim, parecem super complicados. Mas quando consigo, rio sozinha com a deliciosa sensação de ter tocado uma nota certa.

Ainda não sei tocar uma música sequer e tenho consciência de que o processo será lento mas, ao contrário da urgência que eu tinha enquanto adolescente que não me permitia degustar, me debruçar e esmiuçar o “fazer música”, agora transformo tal aprendizado em uma terapia. Nessas horas eu penso em como é bom amadurecer.