Paloma Guedes

De tudo um pouco sobre o penso, o que faço, o que falo…

A culpa é da “periguete” — 26/10/2015

A culpa é da “periguete”

Falando em sororidade no texto anterior, me peguei pensando muito sobre isso enquanto assistia ao episódio de sexta-feira (23/10) de Malhação, Meu Lugar no Mundo. Sim, eu vejo Malhação de vez em quando. Me relaxa. Não existem cobranças, envolvimentos emocionais… “a relação perfeita”, como diriam alguns. Malhação me ajuda a simplesmente vegetar na frente do sofá e dar uma pausa, nem que seja por 20 ou 30 minutos, no turbilhão de pensamentos que enchem a minha cabeça.

Pois nesse sexta, não foi isso o que aconteceu. Pensei muito sobre uma cena que vi, ainda absorvida pelo contexto do último texto. A cena era a seguinte: festinha de adolescentes. Uma menina estava lá, dançando com seu shortinho curto e blusa decotada (Rio de Janeiro, né minha gente? Faz calor, nada mais natural…), meio que de olho em um dos carinhas da banda. Eis que chega um elemento, gato e claramente cafajeste e começa a se insinuar para a tal menina que, apesar de não responder da forma como o tal cafa esperava, também não cortou de maneira incisiva mandando o elemento ir pastar.

Com o passar do tempo as investidas do cafa-gato ficaram mais e mais invasivas, com tentativas de beijo roubado e tudo. O que ele não sabia é que sua namorada – sim, o cafa tinha uma namorada do tipo que os homens classificam como “feita para casar” (que nojo dessa definição) – estava no recinto observando a cena de longe.

E aí, aconteceu o que me deixou mais chocada: a tal namorada, incomodada com a situação, parte, aos berros, para tirar satisfações com quem? Com quem? Com a outra menina. Exatamente. Em nenhum momento, tanto nessa cena quanto nas seguintes em que os acontecimentos foram relatados para os amigos de todas as partes envolvidas, ninguém falou que o errado da história era o cara comprometido que ficou dando em cima de uma outra figura que não era a namorada dele. A culpada, no caso, era a “periguete” que estava dando mole para o coitado inocente que apenas respondeu aos seus instintos primordiais de caçador.

Malhação (não me conformo que ainda usem esse nome sendo que a academia de ginástica já evaporou há decadas) é um seriado voltado para adolescentes e que deveria ter uma grande preocupação nas mínimas mensagens passadas para essas pessoas, adultos em formação.

Televisão influencia e muito na vida e comportamento de muita gente, e é ingenuidade acreditar que não. Portanto, um cuidado maior deveria ser tomado. Legal que outro dia fizeram uma imensa campanha pelo direito democrático de votação para escolher o uniforme usado na escola. Mas isso não chega nem perto das lutas reais e assustadoras que devem ser travadas por aí.

Até porque, são os meninos e os adolescentes que viram homens machistas que acham natural bater e estuprar qualquer “periguete” que dá mole por aí. Afinal, se as próprias mulheres – namoradas, colegas de escolas, amigas, tias e mães -corroboram esse tipo de pensamento, porque seria errado? A educação começa em casa. Fico feliz ao ouvir depoimentos preocupados de amigas que têm filhos e desde pequenos tentam ensiná-los a importância de respeitar TODAS as mulheres.

E Malhação, sinto muito, mas você fez um desserviço justificando uma canalhice masculina, se apoiando no estereótipo da mulher “feita para casar” e colocando a culpa na mulher de short curto e blusa decotada. Que feio!

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Feminista — 23/10/2015

Feminista

Nunca fui feminista. Nunca li Simone de Beauvoir. Nunca sequer estudei de verdade sobre a conquista de determinados direitos pelas mulheres ao longo dos séculos em diferentes países. Nunca fui do tipo “sororidade acima de tudo”, muito pelo contrário. Nunca tive o ímpeto de defender certas atitudes femininas acima de tudo e todos – principalmente as motivadas por homens “acima de tudo de todos”.

Desde adolescente comprei brigas, muitas, a favor da legalização do aborto. Isso nunca mudou e acho que, dos meus 12, 13 anos até agora, esse foi o tema mais concreto e explícito pelo qual lutei (do meu jeito) em termos de direitos das mulheres. Acho terrível que de lá para cá eu ainda precise comprar brigas sobre esse assunto que, infelizmente na minha visão pessimista de mundo, está longe de ser resolvido de forma digna no Brasil. Valeu Eduardo Cunha pela contribuição ao retrocesso.

Fato é que a internet abriu e refletiu luz em um buraco fundo com cheiro de esgoto da sociedade brasileira (acho que esse é um movimento mundial mas prefiro me ater ao que vivo diariamente). Através de comentários em matérias e redes sociais as pessoas perderam a vergonha de desejarem o mal aos outros. Agora é público porque elas se reconhecem em vários outros comentários. Sem vergonha. Sem limites.

Pois isso fez com que fôssemos (nós, pessoas que têm o mínimo de consciência, preocupação social e bondade no coração) confrontados com uma triste realidade: o mundo é pior do que pensávamos. E existem tantas lutas que devem ser travadas contra tantos e tantos temas, tantos preconceitos, tantas atrocidades feitas por aí…

No meu ativismo de sofá (e eventualmente fazendo volume em manifestações de rua) tento, pelo menos, divulgar o que acho certo e criticar o que acho errado. Mas nas últimas semanas me peguei pensando sobre o que me dói, conversando e lendo manifestações de amigas queridas sobre as mesmas questões (vejam esse texto de Tati Reuter, do blog Café Extra Forte que resume bem o turbilhão de medos, inseguranças e tristezas que nos assombram diariamente).

Sou minoria. Dentro da minoria ainda sou privilegiada. Sou mulher. Mas sou branca de classe média. Se sendo mulher, branca e de classe média sofro diariamente com as limitações provocadas por ser do sexo feminino em uma sociedade extremamente machista, imagine as mulheres negras e pobres? Nem é preciso imaginar, basta ler o texto de Eliane Brum sobre Sandra para se ter uma ideia e, espero, o mínimo de sensibilidade sobre o que essa mulher passou.

O machismo não é velado. Não é escondido, sussurrado. O machismo é orgulhoso de ser machista. Homens comentando publicamente sobre a sexualização de uma criança de 12 anos é o quê? Homens se masturbando em sua frente em um ponto de ônibus às 9 da manhã é o quê (sim, isso aconteceu comigo em SP)? Homens afirmando que mulheres que usam roupas curtas merecem ser estupradas é o quê? Empresas que desvalorizam o trabalho e o salário de profissionais simplesmente porque são mulheres é o quê? A lista, minha gente, é imensa.

E porque a lista é imensa e me parece que muita gente prefere fingir que não vê, que não sabe, que é maluquice, coisa “desse povo politicamente correto” (sou politicamente correta com todo o orgulho do meu ser) é necessário lutar pelas mulheres; é necessário lutar por mim.

Se ao menos 5 dos meu leitores conseguirem repensar a forma como a imagem das mulheres é passada e “consumida” por aí lendo esse texto, os textos que indiquei e tantos outros disponíveis por aí e, repensando isso conseguirem mudar a forma como nos vêem, nos tratam, e mesmo que não sejam machistas, que consigam sair em nossa defesa quando necessário, me darei por satisfeita.

E isso não serve só para os homens; serve também para as mulheres que usam um tipo de machismo velado para culpar suas “concorrentes” por fracassos, seja em âmbito sentimental, profissional, social. Isso é muito comum, muito mesmo. Eu assumo aqui, com muita vergonha, que já fiz e eventualmente me pego fazendo. Por isso quis tentar usar esse meu cantinho textual para pensar, repensar, falar, analisar e melhorar. Quem sabe coisas boas não nascem daqui?