Paloma Guedes

De tudo um pouco sobre o penso, o que faço, o que falo…

Escreva, Paloma, Escreva — 19/11/2015

Escreva, Paloma, Escreva

32996990_xlDSEO8f_c_largeMinha melhor matéria nos tempos de escola sempre foi redação. Até mesmo quando me tornei uma adolescente meio desajustada e deixei de ser a excelente aluna que sempre fui até os 13, 14 anos. As notas de exatas foram para o fundo de um poço sem fundo. As de humanas caíram de ótimas para boas mas, em redação, eu continuava sendo uma das melhores da classe, de todas as classes por onde passei.

Por isso, no momento da fatídica decisão pré-vestibular, escolhi jornalismo. Se conhecesse melhor o mercado e se naquela época, início dos anos 2000, soubesse o que esse mercado se tornaria com a chegada da internet (isso é assunto para outro post), provavelmente teria escolhido outra coisa. Quem sabe letras. Ou música. Ou outra coisa. Não sei.

Fato é que eu gostava de escrever. Escrevia sem obrigação nas minhas agendas sempre cheias de palavras, listas, códigos e colagens. Escrevia nos papéis de carta, coloridos e cheirosos, que deviam ser guardados intactos nas pastas de colecionadora. Escrevia em folhas de papel ofício e sonhava em ter uma máquina de escrever. Só tive uma de brinquedo. Nunca uma de verdade.

Escrever me ajudava a organizar os pensamentos, sempre abundantes e descontrolados. Me acalmava, relaxava. Era “a minha coisa”, o meu talento, o meu prazer.

Um dia, às vésperas de sair de Salvador e mudar para São Paulo, pedi que meu pai desenhasse algo para que eu tatuasse, algo que o fizesse lembrar de mim, que ele achasse minha cara. Pela primeira vez ele concordou (a primeira tatuagem, feita aos 15 anos, não foi bem aceita). E ele desenhou, sem me contar antecipadamente o que seria, uma pena de escrita. Tatuei a pena no antebraço esquerdo, próxima a minha mão esquerda. Sou canhota.

Com o passar dos anos continuei escrevendo, profissionalmente e pessoalmente. No jornalismo, exigia-se que a escrita, cada vez mais, fosse rápida, curta, concisa. Na minha minha vida, ela servia como a válvula de escape de sempre mas, dessa vez, compartilhada com quem quisesse ler.

E entre elogios, críticas, gentilezas e ataques fui me tornando medrosa. Insegura sobre até onde deveria me expôr, sobre a qualidade dos meus textos, sobre a recepção daquilo por quem me conhecia bem e por quem não fazia ideia de quem eu era (sou). Me senti triste por julgamentos e pela falta deles, por quem sequer tinha interesse em saber o que eu havia dito ali. E me julguei, como sempre, da maneira mais cruel do que qualquer outra pessoa poderia fazer.

Aos poucos fui perdendo o prazer. Continuava pensando em forma de escrita, como faço desde que aprendi a escrever. Muitas vezes meus pensamentos  vêm em formato de frases combinadas em parágrafos. Mudo palavras e procuro sinônimos para evitar repetições, e vez ou outro abuso dessas tais repetições. Busco a beleza na construção linguística. É como um jogo, uma dança, uma música. Meu jogo, minha dança, minha música. Algo que eu sempre soube fazer.

Não sei exatamente onde me perdi. Acho que foi um processo longo, numa combinação de diversos fatores, diversas experiências, neuroses e impaciências. Sei menos ainda como me achar, resgatar, recuperar. 

Só sei que nesse momento de questionamentos profundos sobre meu lugar no mundo, sinto falta do meu eu que sonhava em ser escritora e corria para o caderno, agenda, guardanapo ou frente do computador sempre que podia e se orgulhava disso; não necessariamente do resultado final da combinação de palavras, mas sim de ter uma grande paixão que dependia única e exclusivamente de mim.

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Meus tantos quereres — 30/09/2015

Meus tantos quereres

A última vez em que escrevi aqui foi sobre uma chuva de meteoros vista na Califórnia. Depois disso viajei, mudei e vi a minha realidade, mais uma vez, ficar de pernas para o ar. Saí de Davis, cidade que para mim será sempre um grande exemplo de qualidade de vida e voltei para São Paulo, cidade que nos últimos anos se tornou um exemplo de falta de qualidade de vida.

Nesse meio tempo ainda passei alguns dias em Salvador, que sempre foi meu lugar de identificação e amor mas que, por relatos de violência urbana que ainda não sei bem se influenciados por histeria coletiva ou pela realidade da cidade, me deixaram bem triste e angustiada, questionando mais uma vez “qual é o meu lugar no mundo?”.

Não sei dizer. Não sei dizer onde gostaria de ter a minha tão sonhada casa, com paredes coloridas cheias de quadros, closet e penteadeira. Queria ficar perto do mar e ter cinemas, amigos, bicicletas e segurança. Queria continuar explorando o mundo, passando temporadas em outros lugares mas com as chaves no bolso e a certeza de que, ao fim desse período, eu teria para onde voltar e só precisaria tirar a poeira dos móveis e canecas guardadas.

Hoje me vejo perdida, mas não só territorialmente. Voltei a procurar trabalho e nesse processo milhões de questionamentos invadem meu consciente, subconsciente e o que mais for possível ser invadido nesse cérebro confuso que faz parte de mim.

Depois de um tempo, de anos de diferentes experiências, tenho certeza do que não quero profissionalmente. Mas não tenho certeza de que posso me dar ao luxo de recusar o que não quero até o ideal aparecer enquanto as contas chegam.

E qual seria esse ideal? Tenho listas de prazeres que fariam um trabalho ser bom. Tenho ideias e intuições sobre o que me deixaria feliz. Tenho plena consciência do mercado profissional que escolhi e das limitações e empecilhos que tais sonhos encontrariam.

Dentro do jornalismo sei o que quero, mas não sei se consigo. Fora do jornalismo não sei o que quero, muito menos se consigo ter forças para começar algo do zero. Tenho admirado, de perto, amigas que encontraram paixões arrebatadoras, largaram tudo, recomeçaram e, apesar das dificuldades, têm aquele brilho no olhar, aquela felicidade pelo domínio sobre suas vidas, seus amores, destinos e profissões. Invejo. Quero o mesmo para mim.

Hoje “acordei de sonhos intranquilos” e fiz listas mentais. Pesquisei sobre cursos. Pensei sobre minhas vontades. Decidi que quero falar sobre cinema, sobre séries, sobre mulheres (beijo Fabi!).

Quero fazer vídeos, reportagens, apresentar programas. Quero escrever meus livros, quem sabe até roteiros, de filmes e de viagens. Quero aprender a costurar, decorar, a fazer móveis e a pintar com aquerela. Quero falar francês. Quero o mundo todo. Mas posso não querer nada isso depois do almoço.

Essa tal ansiedade — 06/08/2015

Essa tal ansiedade

Pensamentos descontrolados, coração acelerado, estômago revirado. É mais ou menos por aí. Os ansiosos crônicos me entenderão. É difícil manter o foco, o equilíbrio e a sanidade quando a expectativa sobre alguma coisa, qualquer coisa, tira sua paz. Sou ansiosa com tudo, sobre tudo, por tudo. É saudável? Claro que não. Tento controlar? Claro que sim. Consigo? Aí já é outra história…

Em momentos de grandes mudanças o mundo parece seguir uma rotação diferente da minha. É como se tudo funcionasse em marcha lenta quando eu mais preciso de respostas imediatas. É uma urgência sem fim por tudo; é um buraco imenso, escuro e sem fundo (dramática, eu? jamais!).

Como ansiosa eu deveria optar por um estilo de vida mais estável. Sem grandes mudanças, sem grandes surpresas, sem grandes emoções. Faço o oposto. Mudo o tempo todo: de emprego, de casa, de cidade, de país. Tá, esse “o tempo todo” foi meio que licença poética, mas nos últimos anos passei por MUITAS mudanças e, consequentemente, muitas crises de ansiedade.

E agora estou prestes a mudar de novo. De começar tudo de novo, praticamente do zero. E aí vem o medo, o pânico, a insegurança, a incerteza. Não sou de roer as unhas e nem tenho grandes vícios (TV, talvez?). A ansiedade tem sido descontada toda na comida, o que é um problema.

Seria tão melhor se, estando ansiosa, eu escrevesse descontroladamente, ou ficasse obcecada por aprender a cozinhar, ou pintar, ou costurar, ou ler, ou correr, ou nadar. Mas não; eu como. E engordo. E fico ansiosa pelo peso e pela saúde. E pelas mudanças. E pela vida.

Todas as vezes que converso com meu pai ele se despede de mim com duas e irritantes palavras: “atitude zen”. Só de pensar em “que diabos significa isso?” e “que diabos eu deveria fazer para virar zen?” já fico ansiosa. Sou um caso perdido?

Eu e meu ukulele — 02/05/2015

Eu e meu ukulele

Sou uma musicista frustrada. Estudei piano dos 8 aos 13 anos. Enquanto estudava piano, só queria tocar sax. Meu pai insistia no primeiro instrumento, afinal, eu já havia começado, tínhamos um em casa e ele é super completo para se ter uma boa formação musical.

Até que meu pai desistiu de insistir quando eu desisti de estudar. Queria que ele tivesse me obrigado. Na época, ele dizia que eu poderia continuar tocando, quem sabe entrar em alguma banda e até tentar viver de música. Por mais difícil que fosse, quer dizer, que é – segundo vários músicos que conheço -, acho que eu gostaria disso. Mas nunca saberei.

Eu era uma adolescente chata passando por uma fase complicada e continuar tocando piano não estava entre minhas prioridades, sejam lá quais eram na época. Claramente tais prioridades não fizeram uma grande diferença na minha vida, já que sequer lembro delas.

Mas gosto muito de música. Gosto de escutar e gosto de ser espectadora de música sendo feita e executada ao vivo. Adoro ir para shows, apesar da minha natureza caseira e diurna que sofre todas as vezes que precisa sair de casa à noite. Mas sempre que vejo uma boa apresentação sinto que o sacrifício valeu à pena. Acho fascinante quem sabe tocar instrumentos, quem sabe compôr, quem sabe fazer o que eu não fiz.

Pois, aproveitando minha vidinha tranquila em Davis com o tempo livre que quase não me sobra pelo tanto que quero fazer ao mesmo tempo, resolvi experimentar algo novo. Tudo começou assim: olhando a programação musical do Mondavi Center, casa de espetáculos incrível da universidade (Caetano Veloso se apresentou lá em 2014, pouco antes de eu chegar na cidade), me interessei pela The Ukulele Orchestra of Great Britain.

Vi uns vídeos no YouTube, peguei o marido pelo braço e fomos para uma noite divertidíssima com oito músicos fazendo versões de todo o tipo de música. As vozes eram lindas, o som era incrível e senso de humor fantástico (era quase uma apresentação de stand up comedy – só que sentados – entre as canções). Nem senti falta dos outros instrumentos.

Saí de lá encantada e botei na cabeça que queria aprender, mesmo sem nunca ter encostado em um instrumento de cordas antes. Para quem não sabe, o ukulele é um cavaquinho havaiano. Basicamente isso.

Eddie Vedder, do Pearl Jam, já gravou um disco inteiro só com ele; Paul McCartney o usava para tocar Something e homenagear George Harrison em seus shows (vi ao vivo e quase morri de emoção porque ela é uma das minhas músicas favoritas dos Beatles) e a atriz Zooey Deschanel também toca, charmosamente, no seu grupo She & Him. Achei que essas foram boas referências.

Dia desses estivemos com amigos em uma loja de instrumentos musicais em Sacramento. Namorei um ukulele mas achei caro. Não levei e fiquei com aquele arrependimentozinho constante, principalmente nos momentos de ócio, pensando que poderia estar aprendendo uma música nova naquele espaço de tempo.

Então, passeando pelas ruas do centro de Santa Cruz, cidade litorânea e surfística (essa palavra existe?) que conhecemos recentemente durante a visita da minha querida amiga Fabi, eis que decidi entrar em uma loja repleta de cavaquinhos – ops! – pendurados na parede. Levei.

Agora tenho lutado diariamente (usando esse blog) para tentar entender a lógica dessas cordas, tentar aprender esse dedilhado infernal que vai contra tudo o que aprendi na minha iniciação musical – nada de dedos alongados, como eu deveria ter ao tocar piano; tenho que acomodá-los todos encolhidos nos quadradinhos apertados para conseguir acordes simples mas que, para mim, parecem super complicados. Mas quando consigo, rio sozinha com a deliciosa sensação de ter tocado uma nota certa.

Ainda não sei tocar uma música sequer e tenho consciência de que o processo será lento mas, ao contrário da urgência que eu tinha enquanto adolescente que não me permitia degustar, me debruçar e esmiuçar o “fazer música”, agora transformo tal aprendizado em uma terapia. Nessas horas eu penso em como é bom amadurecer.

Nadar ou não nadar? Eis a minha questão — 21/04/2015

Nadar ou não nadar? Eis a minha questão

Tive insônia. Por excesso de pensamentos sobre uma questão que não me sai da cabeça desde ontem, mas que só durante a madrugada me incomodou ao ponto de tirar meu sono. Quero largar a natação. Mas não quero. Quero mais do que não quero mas sinto o peso da obrigação de ir até o fim em algo que comecei. Me cobro muito por não conseguir levar certos projetos adiante, não apenas os relacionados às atividades físicas, apesar de que esses são os piores exemplos dos últimos anos.

Mas o livro continua jogado às traças virtuais a mais de 5 anos. Mudo de ideia, mudo de personagem, mudo de fomato, só não mudo minha dedicação à escrita. Esse blog é um bom exemplo disso: não consigo escrever constantemente como deveria, como agora, com tempo de sobra, poderia. Ah, o tempo. Já falei disso aqui. Tenho tanto e tão pouco para tudo.

Mas voltemos à natação: estou em crise. O melhor horário de aula para mim vem carregado de problemas. O sol é muito forte e minha pele não aguenta. A piscina é muito cheia e dividir uma raia com mais quatro pessoas me tira do sério. Em três meses ainda acho incompreensível o tal quadro branco cheio de números e siglas que, teoricamente, deixam o treinamento do dia explícito para todos. Odeio não saber direito o que devo fazer e odeio ter que ficar imitando os outros.

Não sei se essas questões começaram a me incomodar com o passar do tempo e a ausência de grandes resultados no meu desempenho – continuo nadando mais devagar do que uma senhora que só tem uma perna -, ou porque simplesmente sou do tipo “eternamente insatisfeita” com tudo. Mas não gostaria de ser. E tenho medo de que, largando a natação, apenas confirme essa angustiante verdade.

Nesse momento queria achar um esporte para chamar de meu, abraçá-lo, enchê-lo de carinho e não largá-lo nunca mais. Queria ficar apaixonada de só pensar nele, só querer “estar com ele” o tempo todo, sabe como é?

Ainda acho que minha relação de amor com a natação não está fadada ao fracasso. Mas sou monogâmica e não lidei bem com essa “suruba aquática” que encontrei na California. Caminhada? Corrida? Luta? Crossfit? Ó céus. Nesse momento, eu só queria era ser bem decidida e resolvida.