Publicado em Califórnia, Crise dos 30, Pensamentos

A nudez americana

Se Geisy Arruda morasse nos Estados Unidos ela nunca teria virado subcelebridade. Pelo menos não pelo motivo que rendeu destaque na mídia brasileira – talvez se fizesse uma sex tape que nem Kim Kardashian até ganhasse um reality show no E!… vai saber..

Fato é que usar um vestidinho curto e colado na faculdade seria solenemente ignorado por aqui. Afinal, quando o clima começa a esquentar, as meninas frequentam as aulas com shorts curtinhos, daqueles que mostram a polpa da bunda, sabe? Pois é.. e elas também costumam tomar sol de biquíni nos gramados do campus. Isso eu já presenciei. E se você pensa, querido leitor ou leitora, que isso é privilégio de universidades mais baratas, com gente “diferenciada” – sempre tem alguém que pensa essas coisas, né? – digo que essa cena se apresentou para mim nos gramados da UCDavis e Stanford.

É normal e acho incrível, principalmente por ser do Brasil e viver constantemente tensa com o que vou vestir ao sair nas ruas, não por uma questão estética, mas por uma questão de segurança: se você usa algo curto ou decotado, os homens se vêem no direito de partir para cima, verbal ou fisicamente, de forma desrespeitosa e agressiva. Todas sabem do que estou falando, isso não é novidade. E não duvido que aqui aconteça, mas não me parece algo frequente ou que reprima a vontade das californianas de exibirem seus corpos com muito orgulho e sem nenhuma preocupação.

Só me incomoda quando o povo daqui acha que brasileira só anda pelada. Culpa do Carnaval do Rio, eu sei, que sempre passou essa imagem de lindos corpos praticamente nus se exibindo em escolas de samba. Ah, se eles soubessem que nem um topless na praia é permitido pelo machismo dos homens e pela moral da família brasileira, e como às vezes a alça de um sutiã aparecendo pode despertar os piores instintos animalescos de uma sociedade que, desse ângulo, é de uma hipocrisia imensa. País tropical, quente e repressor.

Pois eu comecei a fazer natação aqui. Já estou no segundo mês. E a primeira coisa que mais me causou estranheza, no primeiro dia, foi a hora do banho. No Brasil, na maioria dos lugares onde nadei, existia uma divisão com portas em cada um dos chuveiros – desculpem se eu estiver equivocada e isso for exceção, mas realmente nunca frequentei muitos lugares de fazer exercício físico, então a bagagem de comprações é bem limitada.

Em todo caso, o que presenciei em Davis é “pior” do que as imagens que vemos no cinema e TV dos banhos de cadeia (como nunca fui presa, não sei como é na vida real). Nos filmes e séries, os chuveiros ficam pregados nas paredes e você toma seu banho lado a lado, certo?

Já no vestiário daqui, existem dois “postes”, com quatro duchas saindo de cima de cada um, em ordem circular, onde você toma banho, inevitavelmente, de frente e de lado para outras três pessoas. Mas isso não é tudo: aqui, todas tomam banho peladas. Não tem o esquema BBB daquele banho de biquini. Nananinanãooo. Peladas.

No primeiro dia estranhei mas achei que seria mais estranho se eu fosse a única “vestida” do ambiente. Tirei meu maiô, timidamente, e tomei o banho mais rápido da minha vida. No terceiro dia já estava acostumada. São mulheres de idades diferentes, corpos diferentes, e que não estão nem aí para as suas formas e suas diferenças. Minto, percebo eventualmente olhares direcionados para minhas tatuagens, porque sou a única que tem uma quantidade relativamente grande comparada à todas as outras moças do recinto. Normal.

Essa semana, inclusive, dei mais um grande passo na luta pela minha autoestima e aceitação do meu atual corpo. Troquei o maiô pelo biquíni. Eu já tinha notado que algumas pessoas nadavam de biquíni e achei esquisito, meio piriguetismo (sim, preconceituosa, eu sei e me envergonho) mas, né, aqui é Califórnia então deve ser normal. 

Depois de um mês, tudo fazia sentido: se você nada, pelo menos três vezes por semana, às 11 horas da manhã, o bronzeado vem com tudo, você queira ou não, você use protetor solar 70 ou não. Desenvolvi um bronze-maiô e não fiquei feliz. Portanto, resolvi apelar para o duas-peças. Mas botar o barrigão de fora não era uma ideia que me agradava. Lutei contra, tentei evitar, mas aquela barriga, além de grande, branca demais, passou a me incomodar.

E fui de biquíni. O pequeno, brasileiro. Não o calçolão americano que elas usam aqui. Nervosa. Tensa. Com medo dos olhares e dos julgamentos. Ninguém me olhou – pelo menos que eu tenha percebido. Ninguém estava nem aí para o que eu estava usando. Todos mundo parecia focado demais em conseguir fazer seus exercícios para se preocupar com minhas gorduras extras. Porque a maior julgadora de mim mesma sou eu.

No fim das contas o pequeno, brasileiro, não deu muito certo. A bocó aqui não se tocou que para fazer exercícios você precisa de um biquíni específico, com cordinha para apertar mais no quadril. Com o meu normal, na primeira braçada, fiquei com a bunda de fora. Coisa de brasileira do carnaval. Ou de californiana da vida real.

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Road Trip USA: Disneyland e San Diego

IMG_20141223_093229Já começo esse texto dando duas dicas fundamentais para quem pretende aproveitar a Disneyland californiana: corra atrás do Fast Pass, opção que existe na maioria dos brinquedos e te permite reservar com antecedência um lugar na “entrada especial”, onde você praticamente não pega fila. Para fazer isso, por favor, guarde o seu ingresso de entrada; é ele que você usará nas máquinas do Fast Pass para marcar seu acesso.

O único problema é que, após pegar um desses “passes”, é preciso esperar algumas horas para ser liberado a pegar outro. Mas ainda assim, vale muito à pena. Dizem que dei sorte, porque a média de tempo nas filas em que fiquei foi de 50 minutos. Achei um saco mas ouvi dizer que poderia ter sido bem pior.

Em todo caso, apesar das longas esperas, me diverti loucamente e gostaria muito de voltar para conhecer o Adventure Park – é humanamente impossível ir aos dois no mesmo dia, além do que são ingressos separados, então o bolso também não aguenta.

Ah, a segunda dica e mais importante de todas: cuidado para não ser atropelado(a) por carrinhos de bebês. Mães e pais insanos dirigem aquelas coisas que parecem mais tanques de guerra buscando vítimas que abram caminho no meio da multidão e, de quebra, ainda ajudem a diminuir as filas. É quase um controle populacional dentro do parque. Tenho pavor de carrinhos de bebês desde então.

Minha outra grande paixão da viagem foi San Diego. Por aqui na Califórnia sempre ouvi as pessoas dizendo que amam San Francisco (eu também!) e odeiam Los Angeles, mas nunca ninguém me falou sobre San Diego. Que cidade linda. Linda, linda, linda.

E que zoológico legal. Dica de ouro se você for visitá-lo (tem que ir!!!): chegue cedo, nove da manhã que é quando abre, e vá direto ver os pandas. Não sabíamos da concorrência frenética por espaço naquele lugar específico e ficamos andando, tranquilamente, enquanto o zoo estava super vazio, nos divertindo com os outros bichos – muito amor pelos coalas.

E aí, na hora dos pandas, enfrentamos uma longa fila e muita pressão para andar rápido: resultado, mal deu para tirar fotos e aproveitar o momento de estar pertinho de seres tão fofos que comem bambu como se estivessem palitando os dentes.

Depois recomendo muito um passeio pelo Balboa Park, que é onde o zoo está localizado. É incrível, com construções fantásticas, praças, fontes, museus… é um lugar daqueles que para onde você olha tem algum detalhe bonito, sabe?

O que eu não recomendo é alugar bicicletas duplas ou triciclos para fazer o reconhecimento do local. Não vale a pena. Tudo é muito cheio, você mal consegue sair do lugar e a preocupação de atropelar alguém (ao contrário das mães e pais psicopatas já citados) faz com que o passeio seja tenso. Vá por mim, caminhe porque tudo é bem pertinho, agradável e surpreendente; a cada portinha que você ultrapassa, em cada jardim onde você entra, em cada esquina que você vira tem algo bacana para ser visto.

E além do parque e do zoo, Coronado Island é um caso à parte. A pequena ilha é ligada à cidade por uma ponte e tem a cara da riqueza. Pelo visto, é a moradia dos ricos de San Diego. Casas lindas, praias lindas, pôr-do-sol lindo e um mega resort deslumbrante que é atração turística do local. Tanto a vista da ilha para a cidade, quanto a vista da cidade da ilha são incríveis. Quase me senti no Porto da Barra olhando para Itaparica (ê saudade da Bahia).

Ah, San Diego, eu realmente gostei de você.

E no próximo post: Vegas, baby!

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Road Trip USA: Los Angeles

Turistas sendo turistas (Foto: Divulgação)

Depois do paraíso de Santa Bárbara, chegamos no inferno das rodovias de Los Angeles. Todo mundo que conheço sempre falou muito mal da cidade por causa do seu trânsito caótico. Minha primeira experiência por lá, há alguns anos, foi rápida e tranquila, afinal, era feriado. Mas dessa vez a impressão da chegada foi terrível.

Você pode estar no centro da cidade e, ao virar para esquerda – ou direta, se preferir -, cair numa rodovia de alta velocidade com pessoas que dirigem feito loucas (até matei a saudade da Avenida Paralela, em Salvador). É como se a cidade toda fosse formada por uma teia das horrendas Marginais (agora a referência foi paulistana).

Isso sem falar nos valores abusivos dos estacionamentos. Encontramos um shopping em downtown e paramos lá por cerca de duas horas. Só porque não lemos direito as placas e não colocamos o carro nos pisos A,B,C de baixo, e sim no J, de cima, pagamos 27 dólares. Por duas horas. Nos pisos de baixo teríamos pago 4. Foi um assalto, à luz do dia, e consentido por nós, famintos e perdidos que não prestamos atenção no diabo da placa.

Portanto, se puder, não dirija por lá. O primeiro dia de passeio foi super tenso por causa das tais rodovias (freeways) que nos levaram até a cidade de Anaheim, há uns 40 minutos de LA, onde fica a Disney. Por causa disso e do cansaço extremo acumulado no dia anterior, largamos o carro no hotel e passamos um dia inteiro usando aqueles ônibus turísticos com visão panorâmica na parte de cima, sabe?  Bem esquema turistão. Eu adoro!

O “Hop-On, Hop-Off” salvou nossa vida. Fomos para Santa Mônica (no famoso píer e parque de diversões, com direito a andar em roda-gigante e montanha-russa), passamos por Beverly Hills, pelo centrão, por Chinatown… de ônibus a cidade me pareceu muito mais interessante.

Nós compramos as passagens de um dia que nos permitiam pegar qualquer ônibus da empresa, em qualquer trajeto, durante 24 horas, em frente ao Chinese Theatre na Hollywood Boulevard.

Para quem não conhece, essa é a rua obrigatória para todo turista: tem a calçada da fama, tem o povo fantasiado para tirar foto (vi um Bob Esponja xavecando – com a voz do personagem – uma ajudante de Papai Noel em trajes ínfimos), tem o lugar onde acontece a cerimônia do Oscar, tem três camisetas por $9,99…

O único momento em que pegamos o carro nesse dia, 24 de dezembro, foi para chegar até a casa dos queridos Salem e Carol, que nos convidaram para jantar. Valeu a pena: noite agradável, comida boa e sem freeways no caminho. Milagre natalino.

No próximo post: dicas para se dar bem na Disneyland e no Zoológico de San Diego.

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Road Trip USA: Museu do Snoopy e Santa Barbara

Se você gosta do Peanuts, vale muito dar uma passada no Museu de Schulz, que fica em Santa Rosa, na região de Sonoma. Segundo George – guia que antes de começar a falar sobre a vida do criador de Snoopy quis dar umas dicas locais para os turistas -, as vinícolas de lá são muito melhores e mais baratas do que as da “super-valorizada” região de Napa Valley. Não tivemos tempo de conferir a veracidade da informação, mas esse, sem dúvida, será um bom estímulo para mais uma viagem.

Deixando os vinhos de lado, o museu é uma graça e vale muito esperar para acompanhar a visita guiada, com histórias interessantes sobre o desenhista e seus “filhos”. Fora a fofura das paredes cheias de desenhos, exposições, quadros e esculturas baseadas em Charlie Brown e seus amigos dos quadrinhos.

Lá também existe uma sala de cinema onde são exibidos documentários e filmes dos personagens. E ainda por cima, dentro do “Warm Puppy Cafe”, existe uma pista de patinação para quem quiser se aventurar sobre o gelo. E, claro, uma passada é mais que obrigatória na enlouquecedora loja de souvenirs.

Sobre Santa Barbara eu não tenho muito o que falar: foi amor à primeira vista. Ela é linda, pequena, charmosa e fica em área de tsunami, só para dar mais emoção ao ambiente. A cidade me lembrou muito Berkeley, só que menor e mais legal.

A State Street é uma rua imensa e a mais interessante para se hospedar. É onde o agito acontece: cheia de lojas, bares, restaurantes, cinemas e gente perambulando de uma lado para o outro. Tipo uma Oscar Freire – pela reunião de lojas caras, descoladas e um ambiente meio chiquetoso -, só que legal, sem aquela cara de cenográfica com pessoas pagando de figurantes que parecem estar passando fome para segurar a expressão blasé. Dá gosto de caminhar por lá.

Seguindo pela State Street em direção ao mar, você encontra o Stearns Wharf, um píer com lojas e lugares para petiscar. Essa área toda é uma delícia porque, além do píer, você tem um calçadão inteiro de orla para andar, olhar o mar, as montanhas e, se der, sentar na areia e esperar o pôr-do-sol chegar e sair. Tão Califórnia…

No próximo post, a caótica Los Angeles.

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Road Trip USA: O Início


No final do ano passado fiz uma viagem de carro por alguns lugares famosos e bacanas dos Estados Unidos. Munida do meu Moleskine roxo de bolinhas e de uma caneta cor de rosa, escrevi sempre que pude tópicos e impressões do que aconteceu em cada um dos 15 dias, pensando em desenvolver posteriormente um relato bacanudo, misturando literatura e jornalismo, nos moldes da Revista Piauí. Enrolei e não escrevi. Aí pensei em escrever vários textos diferentes, um para cada cidade visitada. Fiz o primeiro, mas não gostei tanto. Enrolei e não desenvolvi.

Sentada na frente do computador e enfrentando todas as minhas limitações – a procrastinação + o medo que sempre toma conta de mim na hora de escrever -, escolhi o caminho mais confortável: um texto apenas, com dicas importantes caso alguém que me leia possa e queria percorrer caminhos parecidos. Escrevi, escrevi, escrevi e de tão grande que ficou, foi divido. Nos próximos dias publicarei relatos e fotos com detalhes da viagem.

O marido e eu saíamos no fim de dezembro de Davis, Califórnia. Passamos por Santa Rosa – mais especificamente no Charles M. Schulz Museum -, Santa Bárbara, Los Angeles (e Disneyland), San Diego, Las Vegas e Flagstaff (passagem para o Grand Canyon). No meio do caminho, lutando com o GPS, paramos em várias cidades interessantes, principalmente no litoral.

Na verdade nosso GPS foi um app para celular chamado Waze. Além do carro e dos seguros, ficaria muito caro pagar pelo aluguel diário do aparelho tradicional. Porque, meu amigo e minha amiga, aconselho a você sempre estar munido de seguros para transitar nesse país, de todos os tipos e que cubram qualquer eventualidade, caso você não queira vender suas calças e sua alma para o “Tio Sam”. Ainda bem não os usamos em nenhum momento, mas nunca se sabe, né? Só para vocês terem uma ideia, os seguros – tanto para proteger o nosso carro quanto para cobrir consertos em outro carro que viéssemos a estragar – aumentaram em mais de 200 dólares o aluguel do veículo durante 15 dias.

O Waze é um aplicativo massa, mas tem um probleminha: ele sempre vai te jogar para seguir pelo caminho mais rápido, não pelo mais bonito. Portanto, quando percebemos da pior forma que isso estava acontecendo – a Big Sur tinha ficado para trás – , passamos a buscar no mapa de papel o nome dos lugares onde gostaríamos de parar, e seguimos sempre alterando a rota no celular, numa briga constante, mas que valeu pelas lindas paisagens do Oceano Pacífico. E fica a dica: apesar dos avanços tecnológicos, é sempre bom ter um guia com mapas e informações sobre cidade e estradas à mão.

No próximo post, detalhes sobre o “Museu do Snoopy” e a linda Santa Bárbara.