Paloma Guedes

De tudo um pouco sobre o penso, o que faço, o que falo…

A chuva de estrelas — 13/08/2015

A chuva de estrelas

Davis é uma cidade escura. E isso é proposital. Como os moradores daqui não têm grandes preocupações com criminalidade, eles optaram por exigir, junto à prefeitura, que postes de iluminação pública não fossem instalados ou até que fossem retirados de algumas ruas. O motivo? Luz artificial atrapalha a contemplação das estrelas. Foi o que escutei. E acreditei plenamente que essa tenha sido, de fato, a motivação das privilegiadas pessoas que vivem nesse lugar.

Pois em tempos onde cientistas descobrem que o universo está morrendo, recebo a seguinte mensagem no celular: “Pablo está nos chamando para ver uma chuva de estrelas cadentes…”. Pablo, já citado aqui no blog, é o colombiano abrasileirado responsável por nos levar para fazer coisas legais pela Califórnia; coisas legais que talvez nem saberíamos sem ele. De vulcões e girassóis até estrelas.

Saímos às 9 da noite da quarta-feira, 12 de agosto, e entramos na van azul marinho, junto com outros brasileiros. Munida de uma esteira de palha que comprei outro dia na promoção do mercado e me tem sido muito útil nessa rotina de vida perto da natureza, desembarquei do carro em um campo de futebol, deserto e escuro.

Estiquei a esteira no chão, deitei de barriga para cima e olhei para o céu. Olhei para o céu da Califórnia, para o céu de Davis, durante uma hora. Eventualmente escutava alguém dizer: “olha ali um!”, “acabou de passar outro!”… e eu não via nada.

Para uma ansiosa crônica como esta que vos escreve, não foi um momento fácil. Por algumas dezenas de minutos a situação foi torturante; eu pensava “droga, só eu não consigo ver uma estrela cadente?”, “droga, estava olhando pro lado errado?”, “droga, será que eu pisquei na hora que passou?”, “droga, só eu não consigo ver uma estrela cadente?” – e assim segui durante um tempo.

Mas depois, encarando aquela imensidão de estrelas que parecia me abraçar, me afagar e me acalmar diante da grandeza e da beleza do universo, parei de ligar para o fenômeno que nos levara até ali (que, na verdade, era uma chuva de meteoros).

Sempre vivi em cidades grandes (com exceção de dois anos na infância), portanto o prazer de olhar as estrelas sempre foi muito limitado aos momentos de viagens para lugares menores, situação que não acontece com muita frequência. Nunca em São Paulo ou Salvador; nunca distraidamente ao voltar para casa à noite; nunca deitada em um campo de futebol escuro.

Me vi apaixonada pelo céu, pelas estrelas e pelo universo. Pensei sobre seu fim, sobre ser sem fim. E quase uma hora depois, finalmente gritei “ÊEEE”. Sim, vi uma estrela cadente (meteoro Paloma, meteoro!).

Apenas uma numa noite especial de “chuva”, onde várias cortaram o céu. Vi uma e, de tão excitada pela visão, esqueci de fazer meu pedido.

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Quando estive em um festival de balões — 29/07/2015

Quando estive em um festival de balões

Sou meio pessimista e meio otimista. Pessimista porque acho que viver é extremamente difícil e diariamente temos que enfrentar mais momentos ruins do que bons. Otimista porque acredito que esses momentos bons, que nos trazem grandes ou pequenas alegrias (como o prazer de Amélie Poulain* em enfiar a mão no saco de cereais quando ninguém está vendo) fazem essa tarefa tão difícil de viver valer a pena.

Pensando nisso, lembrei de uma situação de sonho que vivi há algumas semanas. Aquele momento que de tão lindo, tão perfeito, parece ter sido criado no roteiro que encenamos quando fechamos os olhos – e que até nos sonhos não é fácil de alcançar, afinal, os pesadelos também existem (e falou o lado pessismista).

Pois bem. Era sábado e após um jantar na noite anterior que me fez dormir pouquíssimas horas, acordei às 3h30 da manhã. Não acordei direito; me arrumei e segui para a van ainda nos braços de Morfeu (que agora só consigo visualizar na forma charmosa da ilustração de Sandman**).

Após algumas horas de cochilos, conversas, petiscos, nascer do sol californiano na estrada e uma reunião de brasileiros de diferentes sotaques reunidos por um colombiano abrasileirado, chegamos por volta das 6h30 na cidade de Windsor para o Sonoma County Hot Air Balloon Classic.

Todas as características de vida real como a dificuldade de encontrar estacionamento, a caminhada no frio, o ordinário ato de entregar o ingresso para a recepcionista e o hino americano que tocava distante para marcar a abertura do evento desapareceram no minuto em que vi o primeiro balão colorido tomar forma através do ar quente que saía de uma forte e intensa chama amarela.

Eu nunca tinha visto um balão de perto e realmente fiquei emocionada com aquela imagem. Afinal era um balão lindo, subindo, subindo e subindo em direção ao infinito céu azul (e branco porque várias nuvens se meteram no meu cenário).

Não lembro o que senti na primeira vez que fui a um parque de diversões ou que vi o mar e entrei nele pela primeira vez; mas acho que as sensações devem ter sido parecidas. Me senti como uma criança, excitada pelo diferente, pelo bonito, pelo colorido. 

Logo depois que o primeiro balão decolou (seria essa a nomenclatura certa? será que balões decolam como aviões?), a beleza só aumentou: vários outros começaram a ser inflados ao mesmo tempo.

Aí sim meu cenário de fantasia ficou completo e eu senti como se nunca mais na vida fosse presenciar algo tão absurdamente bonito. Claro que espero que essa sensação se repita outras tantas vezes na minha vida, mas confesso que esse “nunca mais” fez com que o momento assumisse uma intensidade incrível. Não chorei. Mas poderia. Sorri muito. E contemplei muito também.

Mas esse foi um momento de êxtase que nem durou tanto assim. O festival de Sonoma teve uns 30 balões. Depois que eles subiram e ficaram passeando pelo ar, depois de ver tantas cores e formas diferentes no céu da Califórnia, depois que o pescoço começou a doer e o encantamento cedeu o lugar para o “já tá tudo meio igual, não?”, cerca de duas horas depois da chegada já estávamos prontos para sair dali.

Afinal, o mais importante não é a duração do momento de sonho e sim a sensação boa de ter presenciado, de ter participado daquilo que marca o resto da sua vida – mesmo que a lembrança do sentimento desapareça, a memória das imagens continua. E foi assim o dia em que estive em um festival de balões.

Eu e Lia, companheira de deslumbramento
Eu e Lia, companheira de deslumbramento

As fotos são de Rodrigo Cerqueira.

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*O Fabuloso Destino de Amélie Poulin é um dos filmes da minha vida. Acho maravilhoso e recomendo para que, quem ainda não viu, se faça esse favor e assista. É lindo.

** Sandman é uma série incrível de quadrinhos do britânico Neil Gaiman (que lançou vários romances que eu amo e já escreveu roteiros para episódios da série Doctor Who, uma das minhas preferidas) e que tem como personagem principal Morfeu, o “deus” dos sonhos.

Para elas — 27/07/2015

Para elas

Numa sexta à noite reunimos quatro casais para jantar: os brasileiros, os chilenos anfitriões, os noruegueses e os israelenses. As mulheres – que se conheceram nas aulas de inglês – de nacionalidades, idades, culturas e vidas diferentes, se tornaram amigas e descobriram tanto em comum que a amizade foi simplesmente inevitável.

E naquela noite elas finalmente conseguiram reunir os maridos, protagonistas de tantas e tantas conversas, em um lugar só. Homens completamente diferentes que tinham duas coisas em comum (pelos menos essas duas evidentes): a ligação com a universidade californiana e a amizade das esposas.

Essa possibilidade de conhecer pessoas de todos os lugares do mundo que a experiência de morar fora do Brasil me proporcionou foi incrível e impagável. Mas não só conhecer: conviver, criar laços. Estabelecer uma comunicação possível além das nossas línguas nativas; estabelecer uma relação de amizade além das fronteiras.

Não sou daquelas que acredita no “um milhão de amigos” para alcançar a felicidade; sigo cada vez mais no oposto dessa afirmação. Tenho poucos e bons. Mas também não é por isso que viro a cara quando a vida me apresenta gente querida.

Afinal é tão bom almoçar junto todas as quartas-feiras, sair para fazer compras, não parar de falar por um segundo durante as aulas, rir até a barriga doer, tomar café, pintar as unhas, entender a outra mesmo com os terríveis erros de gramática e os sotaques diferentes, conversar sobre questões difíceis, respeitar a opinião oposta à sua e estar ali oferecendo o abraço, não apenas nos momentos de alegria, mas de profunda confusão e tristeza. O amor, minha gente, é universal.

Mando aqui um beijo muito carinhoso para Einav, Paulina e Liv, que não conseguirão entender esse texto em português, mas sempre terão um lugar muito especial no meu coração.

Yosemite — 23/05/2015

Yosemite

Há um tempo eu vinha falando para o marido que precisávamos aproveitar algum fim de semana e ir conhecer Yosemite. O parque, que fica a umas 3h30 de Davis, sempre foi referência de um dos lugares mais lindos da Califórnia (se pá, dos Estados Unidos).

No inverno fica meio complicado de ir porque várias estradas e trilhas são fechadas por conta da neve; existem muitas restrições e precauções que devem ser tomadas. Gostamos de aventura, mas nem tanto.

Ouvimos dizer também que no verão o negócio também é complicado: o parque fica tão lotado, mas tão lotado, que é impossível aproveitar as paisagens sem praticamente entrar em luta corporal com a turistada (categoria na qual estou inclusa) por um espacinho bom pra foto.

Pois bem, aproveitamos que um amigo querido viajou e deixou o carro conosco (não pagar aluguel de carro é uma benção divina em qualquer viagem aqui – beijo Daniel!), e que um casal querido de amigos, Camila e Leandro, iria para lá de qualquer jeito, e nos jogamos estrada.

A previsão era de tempestade na noite anterior da nossa viagem. Com direito à neve e tudo. Mas, no fim das contas, fora uma chuvinha desagradável no primeiro dia e uma estrada fechada que não me deixou conhecer o Tenaya Lake, o clima não foi dos piores. Fez frio, mas com as andanças também fez calor. Tivemos paisagens bonitas nubladas e paisagens bonitas com sol.

O ideal é achar hospedagem dentro do parque, que é imenso. Mas ouvi dizer que esses hotéis e pousadas são concorridíssimos e você precisa de meses e meses de antecedência para conseguir um quarto. Portanto, as cidades próximas são a solução. E quando digo próximas, que sejam realmente próximas.

Dou um exemplo do que aconteceu: Leandro e Camila reservaram um quarto num hotel em Oakdale, pegando como referência a entrada do parque. Na verdade, da entrada do parque até Yosemite Valley, que é de onde você parte para todas as atrações legais, é quase uma hora de carro. De Oakdale até a entrada, seriam quase duas horas, por uma estrada extremamente sinuosa em montanhas altas com abismos assustadores (óbvio que nem eles e nem nós sabíamos disso quando a reserva foi feita).

Resumindo: não é um bom negócio você se hospedar tão longe – ainda mais com uma estrada difícil – principalmente se a ideia é voltar pelo menos duas vezes no parque, em dois dias diferentes.

Depois do desespero da tal estrada sinuosa – nem passamos pela tal Oakdale – paramos na primeira cidade fofa que apareceu e que, segundo o GPS, ficava a 60 quilômetros do parque. Em Gloveland desfizemos a reserva do hotel antigo e procuramos vaga em algo por ali mesmo. Pagamos, por uma diária, o preço de duas previamente reservadas. Mas sinceramente, valeu cada centavo.

Ficamos em uma casa com três quartos em um condomínio fechado. Na verdade procuramos quarto no Hotel Charlotte e a recepcionista simpática (de Davis, claro) nos ofereceu essa opção. Ela sairia pelo mesmo preço (quase 200 dólares com as taxas) que um quarto duplo em outro hotel onde perguntamos. Casa bacanuda e cheia de espaço, pra quê melhor?

Inclusive, caso você fique ou se só passar por Groveland, não deixe de dar uma paradinha no Iron Door Saloon. Desde 1852 fazendo a felicidade dos pinguços locais e turistas, parece ser o bar mais antigo da Califórnia – segundo propaganda própria – e, apesar de não ter uma comida grande coisa, o ambiente legal compensa.

A decoração é uma loucura: são notas de dólar coladas no tetos, cabeças de bichos nas paredes e um monte de tranqueiras por todos os lados. Demos sorte, já que era sexta a noite, de pegar um show ao vivo da banda The Penetrators.

Apesar da safadeza da alcunha, era mais uma simpática banda dos “nativos” de meia idade que tocava clássicos pros amigos que íam lá dançar nos finais de semana. Até eu dancei. O marido me tirou para dançar ao som de My Girl. Quem o conhece sabe que isso é um milagre. Resumindo: morri de amor e de amores pelo Iron Door.

Voltando ao Yosemite National Park, a viagem foi curta e, no total, passamos apenas um dia e meio lá. Muito pouco. Acho que o legal é ter tempo para aproveitar o máximo de trilhas que você aguentar. No meu caso, que sou sedentária, uma por dia já tá ótimo. Resumindo, uma semana seria pouco. Mas, ainda assim, foi uma experiência incrível.

As montanhas de pedras são escandalosamente impressionantes, tipo a muralha de Game of Thrones sem neve, sabe? Imensas, algumas com árvores, outras com cachoeiras… paisagens de tirar o fôlego por todos os lados.

Dentro do parque existem ônibus que levam os visitantes para vários pontos diferentes de onde você pode começar as trilhas. Pegamos um no primeiro dia e afirmo que o serviço funcionou muito bem. Não esperamos mais que 10 minutos entre um shuttle e outro.

Vale muito a pena largar o carro nos estacionamentos gratuitos e seguir esses percursos. Agora na primavera não existem muitas opções, mas no mapa vi que eles disponibilizam outras linhas no verão – provavelmente porque a demanda é maior e porque mais lugares estão liberados por causa do clima.

Para entrar no parque, pagamos 30 dólares por carro. Esse valor te dá um ingresso válido por uma semana. Dica amiga: leve toda a comida que você puder. Foi bem difícil encontrar lanchonetes e restaurantes abertos e quando encontramos, tudo custava os olhos da cara mais uma perna e dois rins. Ah, e os celulares (T-Mobile) simplesmente não funcionaram: nem sinal de telefone, nem o 4G de internet. Nadica de nada.

Outra dica super importante: Yosemite é um parque. Do tipo “cheio de natureza”. Você vai lá para fazer trilhas. Significa: andar muito, muito e muito. Portanto, não façam como eu que, temendo o frio, levei apenas meu par de botas. Não gosto, acho feio, mas não tem jeito: tem que ir com tênis de fazer exercícios. Seus pés agradecerão completamente após um dia inteiro de andanças. Digo isso, inclusive, por uma questão de segurança.

A única grande trilha que fizemos foi até a Vernal Fall, uma cachoeira incrível. Quase tive um ataque cardíaco de tanto subir e descer montanha, mas sobrevivi. Fato é que você pode chegar até o topo da cachoeira, seguindo pela lateral, por uma escadinha de pedras.

O problema é que esse caminho é molhado e botas bonitas e pouco confortáveis não têm a menor aderência para esse tipo de situação. Entenderam meu ponto? Tênis, por favor, sempre tênis.

Ah, e se você tiver labirintite, não recomendo seguir de carro até o Glacier Point, de lá ir em direção às sequóias gigantes e sair do parque pela cidade de Fresno. Eu, no banco no carona, fiquei tonta com tantas curvas nas estradas que eventualmente ficavam estreitíssimas. Sorte que o marido é bom motorista.

Fiquei maravilhada com o parque, mas frustrada porque não vi nenhum urso. Acho que vi um, de longe, enquanto estava no carro. Mas podia ser um tronco de àrvore também, vai saber, era tanta curva e tanta tontura que posso ter tido uma alucinação.

Pelo menos aprendi que, caso algum aparecesse nas áreas mais movimentadas, deveríamos fazer o máximo de barulho para espantá-lo. Mas se encontrássemos algum no meio da mata, em seu habitat selvagem, o melhor é ficar quieto e manter distância, devagar e sem barulho.

Vivendo e aprendendo minha gente. Não vi nenhum, mas me sinto expert no que tenho que fazer caso veja um urso por aí. Nunca se sabe, né?

O único urso que achei foi na loja de souvenirs
O único urso que achei foi na loja de souvenirs

Eu e meu ukulele — 02/05/2015

Eu e meu ukulele

Sou uma musicista frustrada. Estudei piano dos 8 aos 13 anos. Enquanto estudava piano, só queria tocar sax. Meu pai insistia no primeiro instrumento, afinal, eu já havia começado, tínhamos um em casa e ele é super completo para se ter uma boa formação musical.

Até que meu pai desistiu de insistir quando eu desisti de estudar. Queria que ele tivesse me obrigado. Na época, ele dizia que eu poderia continuar tocando, quem sabe entrar em alguma banda e até tentar viver de música. Por mais difícil que fosse, quer dizer, que é – segundo vários músicos que conheço -, acho que eu gostaria disso. Mas nunca saberei.

Eu era uma adolescente chata passando por uma fase complicada e continuar tocando piano não estava entre minhas prioridades, sejam lá quais eram na época. Claramente tais prioridades não fizeram uma grande diferença na minha vida, já que sequer lembro delas.

Mas gosto muito de música. Gosto de escutar e gosto de ser espectadora de música sendo feita e executada ao vivo. Adoro ir para shows, apesar da minha natureza caseira e diurna que sofre todas as vezes que precisa sair de casa à noite. Mas sempre que vejo uma boa apresentação sinto que o sacrifício valeu à pena. Acho fascinante quem sabe tocar instrumentos, quem sabe compôr, quem sabe fazer o que eu não fiz.

Pois, aproveitando minha vidinha tranquila em Davis com o tempo livre que quase não me sobra pelo tanto que quero fazer ao mesmo tempo, resolvi experimentar algo novo. Tudo começou assim: olhando a programação musical do Mondavi Center, casa de espetáculos incrível da universidade (Caetano Veloso se apresentou lá em 2014, pouco antes de eu chegar na cidade), me interessei pela The Ukulele Orchestra of Great Britain.

Vi uns vídeos no YouTube, peguei o marido pelo braço e fomos para uma noite divertidíssima com oito músicos fazendo versões de todo o tipo de música. As vozes eram lindas, o som era incrível e senso de humor fantástico (era quase uma apresentação de stand up comedy – só que sentados – entre as canções). Nem senti falta dos outros instrumentos.

Saí de lá encantada e botei na cabeça que queria aprender, mesmo sem nunca ter encostado em um instrumento de cordas antes. Para quem não sabe, o ukulele é um cavaquinho havaiano. Basicamente isso.

Eddie Vedder, do Pearl Jam, já gravou um disco inteiro só com ele; Paul McCartney o usava para tocar Something e homenagear George Harrison em seus shows (vi ao vivo e quase morri de emoção porque ela é uma das minhas músicas favoritas dos Beatles) e a atriz Zooey Deschanel também toca, charmosamente, no seu grupo She & Him. Achei que essas foram boas referências.

Dia desses estivemos com amigos em uma loja de instrumentos musicais em Sacramento. Namorei um ukulele mas achei caro. Não levei e fiquei com aquele arrependimentozinho constante, principalmente nos momentos de ócio, pensando que poderia estar aprendendo uma música nova naquele espaço de tempo.

Então, passeando pelas ruas do centro de Santa Cruz, cidade litorânea e surfística (essa palavra existe?) que conhecemos recentemente durante a visita da minha querida amiga Fabi, eis que decidi entrar em uma loja repleta de cavaquinhos – ops! – pendurados na parede. Levei.

Agora tenho lutado diariamente (usando esse blog) para tentar entender a lógica dessas cordas, tentar aprender esse dedilhado infernal que vai contra tudo o que aprendi na minha iniciação musical – nada de dedos alongados, como eu deveria ter ao tocar piano; tenho que acomodá-los todos encolhidos nos quadradinhos apertados para conseguir acordes simples mas que, para mim, parecem super complicados. Mas quando consigo, rio sozinha com a deliciosa sensação de ter tocado uma nota certa.

Ainda não sei tocar uma música sequer e tenho consciência de que o processo será lento mas, ao contrário da urgência que eu tinha enquanto adolescente que não me permitia degustar, me debruçar e esmiuçar o “fazer música”, agora transformo tal aprendizado em uma terapia. Nessas horas eu penso em como é bom amadurecer.