Os muitos psiquiatras de uma pessoa só

Da psiquiatra número 1 não tenho muito o que falar: foram apenas duas consultas pelo SUS em um período de poucos meses de desemprego em que estive em Salvador, sofrendo de uma ansiedade enlouquecedora (ainda sem o diagnóstico de depressão). Ela me receitou um remédio bem conhecido e que não me causou grandes problemas. Mas ele me dava sono, muito sono. Em alguns dias, dormi cerca de 20 horas; acordei apenas para comer e ir ao banheiro. Enquanto estava desempregada eu até gostava de dormir tanto para não pensar tanto na vida (sim, já existia a depressão, mas eu não sabia). O problema foi quando voltei a trabalhar…

E aí partimos para o psiquiatra 2, do bom plano de saúde que eu tive quando consegui um emprego. Contei sobre o efeito que a medicação provocava em mim. Ele disse que aquilo era impossível de acontecer. Eu disse que estava acontecendo comigo. Ele disse que era especialista em sono e aquilo era impossível de acontecer. Fui embora e nunca mais voltei (mas, claro, fiz uma reclamação formal na clínica).

Psiquiatra 3, também do plano de saúde. Em algum momento da consulta comentei sobre a fome desesperada que eu sentia por conta da ansiedade e sobre o aumento de peso, que prejudicava minha autoestima. E sobre o remédio que me dava muito sono. Ela receitou uma combinação de dois antidepressivos muito usados para quem quer emagrecer. Passei a ter insônia. Ela receitou um ansiolítico para me fazer dormir toda noite. Naquela época, durante alguns meses, já que é necessário esperar dezenas de dias para perceber os efeitos das medicações e outras dezenas para ajustá-las, eu passei muito mal. Tenho, inclusive, relembrando dos efeitos colaterais que são muito parecidos com os que senti na última semana, durante o processo de desmame e abstinência do remédio mais recente. Lembro que na época comemorei meu aniversário com uma festa em casa, e que quase não me lembro do que aconteceu lá – e não, não bebi absolutamente nada alcóolico e nem tive vontade de comer brigadeiro, bolo e pãozinho delícia (!!!). Voltei ao consultório, triste, desesperada e desabafei: disse que me sentia como uma “rata de laboratório”. Aos gritos, a médica afirmou categoricamente que, se não não confiava no trabalho dela, deveria parar de fazer o tratamento. Saí do consultório aos prantos e segui chorando compulsivamente durante todo o caminho da Avenida Paulista até minha casa.

Psiquiatra 4, particular, indicado por uma amiga. Nesse meio tempo, eu fazia tratamento para enxaqueca usando baixas dosagens de um antidepressivo, prescrito por um neurologista. O psiquiatra, escutando meus relatos, decidiu que aumentaria a quantidade desse remédio. Ele seguiu aumentando por meses. E por meses eu me sentia mal, não só psicologicamente, mas fisicamente também. As consultas não duravam mais que meia hora. Quando, fora do consultório, eu mandava mensagens relatando as dores e efeitos terríveis que assustavam, ele respondia três dias depois que aquilo era normal. Posteriormente, todos os outros médicos que souberam das altas dosagens do tal remédio que tomei ficaram confusos ou chocados. Não sei qual reação é a pior.

Psiquiatra 5, de volta ao plano, já que o particular não funcionou. Eu até simpatizava com ela, era meio hippie, meio esquisita, sempre falando de dieta, de cortar glúten, carboidratos etc. Ela receitou um remédio que funcionou muito bem. Não me deu efeitos colaterais, reduziu minha ansiedade e o principal, me deixava um pouco mais disposta para sair de casa e… viver. Até que, quase um ano depois, voltei a ficar mal. Dobramos a dosagem e de nada adiantou. Nesse momento, fiquei inclinada e trocar de profissional porque, durante os primeiros meses, ela tentou me convencer a usar uma substância, que “curava até câncer” (obviamente nunca acreditei nisso, mas se ajudasse na depressão, já tava valendo). Até tentei mas me fez mal logo de início. Ela insistia e, em todas as sessões, eu recusava. Enquanto o outro remédio funcionava bem, eu ignorava essa parte. Quando parou de funcionar, achei melhor procurar alguém que me passasse mais confiança.

Psiquiatra 6, plano de saúde. Nesse momento eu já estava desempregada mas pude usar meu plano por alguns meses após o fim do contrato e, posteriormente, o do meu ex-marido; consulta particular já estava fora de cogitação. Esse médico, com consultório em Higienópolis, bairro chique de São Paulo, disse que eu era bonita demais para ter depressão e que eu tinha um brilho maravilhoso no olhar… no máximo devia ser uma “ansiedadezinha” que poderia ser resolvida com yoga. A segunda consulta nunca aconteceu.

Psiquiatra 7, plano de saúde. Uma mulher grosseira, que atendia o celular durante a consulta e chamava a caixa do seu banco de “vaca”. Ela tinha câncer, falou abertamente sobre isso, e de certa forma tentei justificar os absurdos, afinal, não deve ser fácil lidar com essa doença. Eu estava desesperada. Ela mudou meu remédio, para o que tomei até pouco tempo. O problema é que um dia roubaram minha bolsa e não tive a carteira do plano para apresentar na consulta de retorno. O celular também foi roubado, então não existia a possibilidade da carteira virtual. O recepcionista dela disse que não podia fazer nada e que eu deveria remarcar a consulta. Como já disse no texto do desmame, psiquiatras são médicos que exigem frequência, porque só deles vêm a receita sagrada dos remédios controlados. Me irritei com a atitude do recepcionista, pouco solícito e empático como sua patroa (que poderia, de forma bem simples, ter ligado para a operadora do plano para pegar a autorização da consulta), e decidi não voltar mais.

Psiquiatra 8, plano de saúde, indicado por uma amiga. Esse foi meu último psiquiatra em São Paulo, antes de voltar para Salvador. Dele eu gostei. Me fazia esperar cerca de uma hora e meia para ser atendida, mas porque passava mais tempo com os pacientes do que as recepcionistas que marcavam os horários acreditavam que ele deveria. Ele seguiu com o remédio que eu já tomava, e foi ajustando outras medicações para eventuais demandas que surgia. Parecia competente mas um pouco acomodado, já que insistia em um remédio que, claramente, não dava mais conta de mim. Mudei de cidade e outra mudança deveria acontecer.

Psiquiatra 9, particular. Esse foi indicado pela minha psicóloga de Salvador e por uma amiga. Devido ao meu “histórico ruim com psiquiatras” e ao meu desespero em ter segurança no tratamento, nessa que é a pior fase da depressão que vivi em 4 anos, esperei por quase dois meses que sua agenda super cheia tivesse um espaço para mim. A espera, para alguém no meu estado, é massacrante. Mas, quando o dia chegou, fui agraciada com DUAS HORAS de consulta. Vocês não têm ideia da diferença que isso faz quando se trata de um psiquiatra, até porque, se a pessoa vai cuidar da minha doença com remédios, ela precisa me conhecer. E eu até me perdi nos resumos das dores da minha vida, dos problemas de infância, adolescência, de família, suicídios, carga genética, mudanças, relacionamentos, separações, trabalho… o psiquiatra número 9 me fez sentir segura. Me deu um cardápio de remédios necessários nesse momento, e uma sensação boa de confiança para continuar o tratamento que é longo e difícil.

Um dia me disseram que eu deveria repensar minha relação com os médicos, afinal, se eu não consegui ficar muito tempo com psiquiatra nenhum, o problema deveria ser comigo. Escrevi esse relato e voltei passo a passo em tudo o que fiz e senti nesses quatro anos para tentar entender se, realmente, o problema fui eu.

Mudar de psiquiatra toda hora é a pior coisa que alguém com depressão pode fazer. Acho que dei azar e fiz algumas escolhas equivocadas, como sempre, assumidas. Mas não me responsabilizo por tudo. Infelizmente, aqui no Brasil, e falo daqui porque é a realidade que conheço, a classe médica não é confiável. Sim, estou generalizando, mas não consigo respeitar pessoas que estudam medicina exclusivamente por status e dinheiro. Os cubanos vieram porque nossos profissionais não queriam ajudar pessoas onde elas mais precisavam, e essa deveria ser a obrigação básica de quem se dedica a uma profissão que cura gente e salva vidas. Isso diz muito sobre o que acontece no país onde desfilar de jaleco na rua não deveria ser admirado e sim, criticado.

Dito isso e deixando claro meu desprezo e insegurança por essas pessoas das quais infelizmente dependo e dependerei pelo resto da vida, quero dizer também que existe a minoria boa, muito boa. Inclusive conheço e me orgulho muito de algumas dessas pessoas. E seguirei buscando, tentando e testando até achar alguém que faça seu trabalho como ele deve ser feito. O número 9 parece ser um desses.

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Um comentário em “Os muitos psiquiatras de uma pessoa só

  1. Absurdas as experiências terríveis que você teve!!! Também é absurdo falarem que o problema está em você!! Só quem precisa de um tratamento sabe como é desesperador depender de profissionais ruins e encarar remédios que fazem muito mal na esperança de melhorar! E a gente encara mesmo cada coisa que só o puro desespero explica, como foi você tentar o “remédio que curava até câncer”. Já passei por isso, tive um psiquiatra que insistia em me dar homeopatia, que é algo sem nenhuma comprovação científica, mas como o remédio tava dando certo e ele era melhor que meu psiquiatra anterior eu aceitar tomar tudo o que ele passava…

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