Fazenda Guarani

Conversando com Hanna, minha prima de 25 anos que só conheci nesse São João, puxei pela memória as lembranças que eu tinha da fazenda e do nosso avô. Não sei se essas lembranças são verdadeiras ou fruto da minha imaginação, ilustrada por fotografias.

João Ribeiro falava pouco, baixo e passava um bom tempo sentado na varanda da casa, sede da fazenda. Ele, negro, sempre fazia alguma brincadeira por ter uma neta tão branca quanto eu (até hoje sou a mais “pálida” desse lado da família, ainda mais depois de ter vivido tanto tempo em SP e tido até deficiência de vitamina D).

Lembro de Lenço Branco, um bezerro que ele me deu; de explorar as montanhas e os pastos verdes e atravessar, morrendo de medo, cercas de arame farpado – eu sempre levava alguns arranhões para casa. Mas não lembro quem eram meus companheiros nessas aventuras.

Lembro de ficar pendurada nas madeiras do curral para ver as vacas sendo ordenhadas e do pavor que sentia só pela possibilidade de beber aquele leite fresco. Até hoje tenho pavor de qualquer tipo de leite.

Lembro de andar a cavalo, de ter receio dele se assustar com alguma coisa, disparar e eu não conseguir controlar. Tenho fotos em que divido a sela do cavalo com minha mãe, mas nas minhas lembranças, sou uma amazona solitária, medrosa porém destemida de aproximadamente 6 ou 7 anos de idade.

Lembro do teto de telhas e vigas de madeiras que seguravam um mosquiteiro cor de rosa e eram a última coisa que eu via antes de dormir.

Lembro de um vizinho, Aguiar, que tinha vários filhos e um pequeno sítio cheio de árvores frutíferas que eram perfeitas para brincadeiras e escaladas, e que enchiam a brasília dos meus pais na volta para Salvador, me deixando com enjoo do cheiro forte de caju e jaca.

Lembro que tinha muitos tios e tias, todos filhos de Constança, uma mulher grande e amável, com voz grave e doce ao mesmo tempo. Ela continua amável, com a voz grave e doce; só não é mais tão gigante, já que muitos anos se passaram e fui eu que virei uma mulher grande.

Lembro pouco dos dias e noites de São João da infância em Santo Antônio de Jesus. Havia casa cheia, fogos e fogueira. Mas as aventuras no mato parecem mais marcantes no baú de lembranças do passado guardado aqui dentro.

Mas agora tenho lembranças juninas de quase 30 anos depois, quando voltei a uma vida que há muito não fazia parte de mim e que, felizmente, foi resgatada nesse meu retorno à Bahia.

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Um comentário em “Fazenda Guarani

  1. Pelo visto o São João foi uma ótima forma de se reconectar com o seu passado, bem legal isso. Espero que tenha tido um efeito positivo.

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