A chuva de estrelas

Davis é uma cidade escura. E isso é proposital. Como os moradores daqui não têm grandes preocupações com criminalidade, eles optaram por exigir, junto à prefeitura, que postes de iluminação pública não fossem instalados ou até que fossem retirados de algumas ruas. O motivo? Luz artificial atrapalha a contemplação das estrelas. Foi o que escutei. E acreditei plenamente que essa tenha sido, de fato, a motivação das privilegiadas pessoas que vivem nesse lugar.

Pois em tempos onde cientistas descobrem que o universo está morrendo, recebo a seguinte mensagem no celular: “Pablo está nos chamando para ver uma chuva de estrelas cadentes…”. Pablo, já citado aqui no blog, é o colombiano abrasileirado responsável por nos levar para fazer coisas legais pela Califórnia; coisas legais que talvez nem saberíamos sem ele. De vulcões e girassóis até estrelas.

Saímos às 9 da noite da quarta-feira, 12 de agosto, e entramos na van azul marinho, junto com outros brasileiros. Munida de uma esteira de palha que comprei outro dia na promoção do mercado e me tem sido muito útil nessa rotina de vida perto da natureza, desembarquei do carro em um campo de futebol, deserto e escuro.

Estiquei a esteira no chão, deitei de barriga para cima e olhei para o céu. Olhei para o céu da Califórnia, para o céu de Davis, durante uma hora. Eventualmente escutava alguém dizer: “olha ali um!”, “acabou de passar outro!”… e eu não via nada.

Para uma ansiosa crônica como esta que vos escreve, não foi um momento fácil. Por algumas dezenas de minutos a situação foi torturante; eu pensava “droga, só eu não consigo ver uma estrela cadente?”, “droga, estava olhando pro lado errado?”, “droga, será que eu pisquei na hora que passou?”, “droga, só eu não consigo ver uma estrela cadente?” – e assim segui durante um tempo.

Mas depois, encarando aquela imensidão de estrelas que parecia me abraçar, me afagar e me acalmar diante da grandeza e da beleza do universo, parei de ligar para o fenômeno que nos levara até ali (que, na verdade, era uma chuva de meteoros).

Sempre vivi em cidades grandes (com exceção de dois anos na infância), portanto o prazer de olhar as estrelas sempre foi muito limitado aos momentos de viagens para lugares menores, situação que não acontece com muita frequência. Nunca em São Paulo ou Salvador; nunca distraidamente ao voltar para casa à noite; nunca deitada em um campo de futebol escuro.

Me vi apaixonada pelo céu, pelas estrelas e pelo universo. Pensei sobre seu fim, sobre ser sem fim. E quase uma hora depois, finalmente gritei “ÊEEE”. Sim, vi uma estrela cadente (meteoro Paloma, meteoro!).

Apenas uma numa noite especial de “chuva”, onde várias cortaram o céu. Vi uma e, de tão excitada pela visão, esqueci de fazer meu pedido.

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Essa tal ansiedade

Pensamentos descontrolados, coração acelerado, estômago revirado. É mais ou menos por aí. Os ansiosos crônicos me entenderão. É difícil manter o foco, o equilíbrio e a sanidade quando a expectativa sobre alguma coisa, qualquer coisa, tira sua paz. Sou ansiosa com tudo, sobre tudo, por tudo. É saudável? Claro que não. Tento controlar? Claro que sim. Consigo? Aí já é outra história…

Em momentos de grandes mudanças o mundo parece seguir uma rotação diferente da minha. É como se tudo funcionasse em marcha lenta quando eu mais preciso de respostas imediatas. É uma urgência sem fim por tudo; é um buraco imenso, escuro e sem fundo (dramática, eu? jamais!).

Como ansiosa eu deveria optar por um estilo de vida mais estável. Sem grandes mudanças, sem grandes surpresas, sem grandes emoções. Faço o oposto. Mudo o tempo todo: de emprego, de casa, de cidade, de país. Tá, esse “o tempo todo” foi meio que licença poética, mas nos últimos anos passei por MUITAS mudanças e, consequentemente, muitas crises de ansiedade.

E agora estou prestes a mudar de novo. De começar tudo de novo, praticamente do zero. E aí vem o medo, o pânico, a insegurança, a incerteza. Não sou de roer as unhas e nem tenho grandes vícios (TV, talvez?). A ansiedade tem sido descontada toda na comida, o que é um problema.

Seria tão melhor se, estando ansiosa, eu escrevesse descontroladamente, ou ficasse obcecada por aprender a cozinhar, ou pintar, ou costurar, ou ler, ou correr, ou nadar. Mas não; eu como. E engordo. E fico ansiosa pelo peso e pela saúde. E pelas mudanças. E pela vida.

Todas as vezes que converso com meu pai ele se despede de mim com duas e irritantes palavras: “atitude zen”. Só de pensar em “que diabos significa isso?” e “que diabos eu deveria fazer para virar zen?” já fico ansiosa. Sou um caso perdido?