Sou meio pessimista e meio otimista. Pessimista porque acho que viver é extremamente difícil e diariamente temos que enfrentar mais momentos ruins do que bons. Otimista porque acredito que esses momentos bons, que nos trazem grandes ou pequenas alegrias (como o prazer de Amélie Poulain* em enfiar a mão no saco de cereais quando ninguém está vendo) fazem essa tarefa tão difícil de viver valer a pena.

Pensando nisso, lembrei de uma situação de sonho que vivi há algumas semanas. Aquele momento que de tão lindo, tão perfeito, parece ter sido criado no roteiro que encenamos quando fechamos os olhos – e que até nos sonhos não é fácil de alcançar, afinal, os pesadelos também existem (e falou o lado pessismista).

Pois bem. Era sábado e após um jantar na noite anterior que me fez dormir pouquíssimas horas, acordei às 3h30 da manhã. Não acordei direito; me arrumei e segui para a van ainda nos braços de Morfeu (que agora só consigo visualizar na forma charmosa da ilustração de Sandman**).

Após algumas horas de cochilos, conversas, petiscos, nascer do sol californiano na estrada e uma reunião de brasileiros de diferentes sotaques reunidos por um colombiano abrasileirado, chegamos por volta das 6h30 na cidade de Windsor para o Sonoma County Hot Air Balloon Classic.

Todas as características de vida real como a dificuldade de encontrar estacionamento, a caminhada no frio, o ordinário ato de entregar o ingresso para a recepcionista e o hino americano que tocava distante para marcar a abertura do evento desapareceram no minuto em que vi o primeiro balão colorido tomar forma através do ar quente que saía de uma forte e intensa chama amarela.

Eu nunca tinha visto um balão de perto e realmente fiquei emocionada com aquela imagem. Afinal era um balão lindo, subindo, subindo e subindo em direção ao infinito céu azul (e branco porque várias nuvens se meteram no meu cenário).

Não lembro o que senti na primeira vez que fui a um parque de diversões ou que vi o mar e entrei nele pela primeira vez; mas acho que as sensações devem ter sido parecidas. Me senti como uma criança, excitada pelo diferente, pelo bonito, pelo colorido. 

Logo depois que o primeiro balão decolou (seria essa a nomenclatura certa? será que balões decolam como aviões?), a beleza só aumentou: vários outros começaram a ser inflados ao mesmo tempo.

Aí sim meu cenário de fantasia ficou completo e eu senti como se nunca mais na vida fosse presenciar algo tão absurdamente bonito. Claro que espero que essa sensação se repita outras tantas vezes na minha vida, mas confesso que esse “nunca mais” fez com que o momento assumisse uma intensidade incrível. Não chorei. Mas poderia. Sorri muito. E contemplei muito também.

Mas esse foi um momento de êxtase que nem durou tanto assim. O festival de Sonoma teve uns 30 balões. Depois que eles subiram e ficaram passeando pelo ar, depois de ver tantas cores e formas diferentes no céu da Califórnia, depois que o pescoço começou a doer e o encantamento cedeu o lugar para o “já tá tudo meio igual, não?”, cerca de duas horas depois da chegada já estávamos prontos para sair dali.

Afinal, o mais importante não é a duração do momento de sonho e sim a sensação boa de ter presenciado, de ter participado daquilo que marca o resto da sua vida – mesmo que a lembrança do sentimento desapareça, a memória das imagens continua. E foi assim o dia em que estive em um festival de balões.

Eu e Lia, companheira de deslumbramento
Eu e Lia, companheira de deslumbramento

As fotos são de Rodrigo Cerqueira.

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*O Fabuloso Destino de Amélie Poulin é um dos filmes da minha vida. Acho maravilhoso e recomendo para que, quem ainda não viu, se faça esse favor e assista. É lindo.

** Sandman é uma série incrível de quadrinhos do britânico Neil Gaiman (que lançou vários romances que eu amo e já escreveu roteiros para episódios da série Doctor Who, uma das minhas preferidas) e que tem como personagem principal Morfeu, o “deus” dos sonhos.

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