A dez passos de Bill Clinton

Na última quarta-feira usei luvas pela primeira vez desde que desembarquei na Califórnia. Ainda é outono, os dias são quentes, mas quando o sol vai embora ou começa a aparecer, é o frio quem comanda.

Usei luvas quando dirigi minha bicicleta até a aula de inglês. Ainda não me acostumei a frear com o pedal – sinto como se tivesse acabado de pegar um carro automático e estivesse me adaptando a uma tecnologia diferente da que sempre usei, nesse caso, desde que tirei as rodinhas auxiliares e passei a me equilibrar apenas sobre duas rodas.

Na aula, dividi a mesa e tarefas com uma chilena, uma cubana e outra colombiana. Na mesa ao lado, Cazaquistão, Irã, Espanha e Coréia batiam um papo animado.

Saí 15 minutos mais cedo. Encontrei o marido no meio do caminho e seguimos para a festa antecipada de Halloween da International House – local da UC Davis feito especialmente para nós, os estrangeiros.

Teoricamente seria um evento apenas para as esposas dos novos alunos, professores e pesquisadores. Um tipo de ‘clube da luluzinha’ para que as ‘desperate housewifes’ – como tenho me auto-entitulado – se conhecessem, trocassem experiências e receitas de cookies. Alguns maridos compareceram, como o meu, apesar de fortes protestos.

No fim das contas foi uma grande reunião para quem não é fluente encontrar uns ‘locais’, praticar mais o inglês e conhecer a casa – que promove vários cursos e eventos durante todo o ano.

Logo que chegamos tivemos uma recepção calorosa, afinal, reconheci de imediato o uniforme da Enterprise usado por uma das organizadoras da festa e desejei ‘vida longa e próspera’ para ela, fazendo o ‘V’ com os dedos afastados no melhor estilo Spock (sim, toda referência nerd da última frase saiu de ‘Star Trek’).

Do sanduíche de pasta de amendoim, passando por cookies caseiros e bolinhos naturais – provavelmente feitos com ingredientes orgânicos, afinal tudo nessa cidade é orgânico -, enchemos a barriga e interagimos, como era esperado em uma reunião desse tipo, com os noruegueses e americanos sentados na nossa mesa. A morte eventualmente passava oferecendo mais comida. Era difícil recusar.

Na saída descobrimos que Bill Clinton estaria no campus para uma palestra. ‘Porque não?’, pensamos, pegamos nossas bicicletas e fomos até o ginásio esportivo onde o ex-presidente falaria.

A fila me lembrou o show de Paul McCartney que fui no estádio do Morumbi há alguns anos. Entramos nela sem sequer saber se deveríamos pagar algo ou se o evento seria gratuito. Esperamos, caminhamos, esperamos, caminhamos, recebemos folhetos dos americanos socialistas (sim, eles existem!!!) sobre o ‘verdadeiro’ Bill Clinton, esperamos um pouco mais, andamos e enfim entramos sem pagar nada.

O que aconteceu foi o seguinte: daqui a alguns dias teremos uma eleição nos Estados Unidos. Confesso que fico bem confusa com o sistema eleitoral daqui. Sei que não é para presidente nem governador. Acho que é para cargos nos congresso ou algo do tipo. Tenho visto várias propagandas na TV de dois candidatos da região de Sacramento – capital da Califórnia e vizinha de Davis.

E nesta quarta-feira, o democrata veio ao campus. Ami Bera é médico, filho de indianos e usa meias listradas e coloridas com o terno cinza-sóbrio. Por aqui o voto não é obrigatório, portanto, os candidatos se jogam nas universidades para implorar que os jovens vão até as urnas. E o que não falta aqui em Davis é jovem.

Pois, apoiado pelo grupo democrata da universidade, Bera veio, discursou e trouxe o marido de Hillary à tiracolo. Vimos Bill Clinton a uns 10 passos de distância. Ficamos bem perto apesar de minha insegurança, afinal, ambiente fechado + universidade + políticos importantes + Estados Unidos = momento perfeito para pelo menos um tiroteiozinho, né?

Pensando assim, deveríamos ter ficado afastados, próximos à saída. Mas não, ficamos de pé, escutando todo o blábláblá sobre política e a importância do voto para as mudanças no país e pensando (só eu, porque certeza que Rodrigo estava concentrado nas questões sérias) como Bill Clinton tem uma cor de pele estranha. Ele é cor de rosa. Talvez de um tom intensificado pelos cabelos completamente brancos. Mas é muito rosa. E também é mais velho do eu que lembrava.

Mas também, as imagens mais marcantes que tenho na mente são da época em que ele era presidente, lá para mil novecentos e noventa e poucos, e passou pela saia justa de Mônica Lewinsky – bom, não foi exatamente ele quem passou pela saia dela, até onde eu ouvi falar. Mas isso não vem ao caso nesse momento.

O importante é salientar que Clinton envelheceu com um bronzeado rosa chiclete mas tem carisma. Confesso aqui que quase me emocionei. E se você assiste e gosta de House of Cards, West Wing, Scandal ou qualquer série ou filme sobre a política dos lados de cá vai entender do que estou falando: me vi no meio daquelas reuniões que os partidos organizam em cidades pequenas onde os candidatos são ovacionados pelo público, sabe? E o povo daqui gosta dele – pelo menos os democratas que estavam no tal ginásio.

Quase três horas depois de termos entrado na fila pegamos nossas bicicletas e lamentamos pela falta de um telefone celular, afinal, seria massa tirar uma self tendo Bill Clinton como papagaio de pirata.

Para ver alguns vídeos e fotos do evento, é só clicar aqui para ler a matéria do Sacramento Bee. 

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Os comunistas estão chegando…

Imagem copiada da página da  MAV - Militância em Ambientes Virtuais - no Facebook
Imagem copiada da página da MAV – Militância em Ambientes Virtuais – no Facebook

Segundo turno chegando, eu estou fora do país, não sou Regiana Duarte mas também tenho medo do rumo que as coisas podem tomar.

Assisti por compartilhamento de vários amigos no facebook a um vídeo da TV Folha que mostrava todos os absurdos do discurso pró-tucano – ‘volta da ditadura militar e batalha contra o comunismo’. Sério? Se não fosse ridículo eu até acharia uma ironia fina, mas o buraco é muito embaixo assim como é assustador saber – e ver – que há quem acredite nisso. Felizmente não conheço ninguém. Que eu saiba até o momento.

Fui atrás e encontrei o vídeo original que mostrava manifestações de eleitores dos dois partidos. Até pensei que a edição do primeiro vídeo que se tornou viral e estimulou vários memes na internet ajudava a manipular e demonizar simpatizantes de Aécio Neves… mas não. O melhor do vídeo é perceber que basta ligar a câmera para as pessoas cuidarem de todo o trabalho sujo sozinhas. Elas se enforcam sozinhas, e, estranhamente, com orgulho de exporem sua ignorância para quem quiser ver. Bom, para eles não é ignorância. E disso eu tenho muito medo mesmo.

Nem é porque acho que Dilma deve continuar na presidência – apesar de não defender o PT, como já disse milhões de vezes -, mas os do time vermelho não envergonharam tanto (tá, ok, tem gente que assume a história do ‘mundo da fantasia em que o partido é casto e perfeito’ e isso não é nada bom na guerra política, afinal, voltar para a vida real ajudaria a passar uma respeitabilidade maior no discurso).

Minha questão é: se você tem dúvidas, assista ao tal vídeo. Para mim ficou muito claro que eu não quero que um candidato e um partido que representem esse tipo de pensamento governem o país. Seria um retrocesso. O PT não foi incrível como deveria, como prometia, como sonhávamos? Foi não. Mas sem o PT pode ficar muito, mas muito pior. Talvez não para quem mora em Higienópolis, no Morumbi, Horto Florestal ou Corredor da Vitória…

Obs: Pelo pouco que acompanho da política dos Estados Unidos nesses tempos em que tenho passado por aqui, sempre acreditei que os Republicanos fossem a escória em termos de direitos humanos básicos e absurdos que tentam enfiar goela abaixo da população. E não é que os PSDBistas chegaram perto?

Quem se importa com a alta do dólar?

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Mudanças sempre são difíceis. Apesar do pânico inicial – e que dura um bom tempo até a retomada do controle perdido -, gosto bastante quando aparece a possibilidade de que algo transforme minha vida. Porém, assumo aqui, a parte logística da coisa vez ou outra me faz pensar que talvez eu devesse ter uma vida mais ‘tradicionalmente’ quieta. Mas aí o cansaço passa e logo tiro isso da cabeça.

Há exatos 10 dias saímos de São Paulo para mais uma temporada na Califórnia. Saímos do caos da cidade e da mudança – muito para resolver, desarrumar, arrumar, fazer, desfazer – para a tranquilidade familiar de Davis, onde já estivemos há alguns anos e, por conta de amigos que fizemos, a chegada foi confortavelmente tranquila.

Mas quase que imediatamente após o abrir da malas, eis que surgem os perrengues: é conta do banco que demora para abrir, é o dinheiro que rapidamente desaparece, a bicicleta usada que dá defeito, o celular que não faz chamadas, o computador que chega quebrado pelo correio, o contrato de TV a cabo difícil de fazer..

E você tira todo o positivismo guardado dentro do seu ser (afinal, você está na Califórnia, oras!), aproveita a sexta-feira sem aula de inglês pela manhã e sai para caminhar no parque na tentativa de espairecer: respira ar puro, aprecia as árvores que emolduram todo o caminho, as casinhas coloridas saídas dos filmes que você cresceu assistindo, retribui sorrisos e cumprimentos de quase todas as pessoas que cruzam o seu caminho e volta feliz da vida para o lugar que será seu pelos próximos meses, e para a vida cotidiana, cheia de dores, delícias e contas em dólar para pagar.

A história do caderno de bolinhas

Andando pelos corredores da maior loja de departamentos da cidade, ele reclamava a cada cinco segundos dos preços. Outubro de eleições presidenciais no Brasil e dólar em alta não parecia, naquele momento, ter sido a melhor época para tal mudança – e nem a leve queda da moeda americana com a chegada do candidato do PSDB ao segundo turno nos trouxe alguma tranquilidade (que fique bem claro: por mim, Aécio Neves sequer teria chegado às oitavas de final. Antes o dólar estratosférico do que o país governado por tal candidato. Agora deixemos a política de lado).

Percorríamos os corredores da loja e, sempre que possível, ele controlava meus impulsos consumistas. Até que, na seção de papelaria, fui atingida em cheio no coração: lindo, roxo e repleto de bolas lilases. Era o Moleskine mais bonito que vi na vida.

Mas, prevendo uma retaliação racional e absolutamente correta da parte dele, deixei minha mais nova paixão na prateleira e segui adiante, sem despedidas ou aquela olhadinha para trás, afinal, o valor estava muito acima do que imaginamos para um simples e básico caderno adicionado na lista de compras essenciais.

Até que, para minha surpresa, escuto o seguinte: “leve Papá, esse aí tem que ser seu!”. E em meio à objetos basicamente necessários para a nova casa californiana onde passaremos os próximos meses, saí da loja com a carteira vazia, um moleskine roxo de bolinhas e meu grande amor (o marido, não o encadernado, que fique bem claro).

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Obs: Para quem não conhece, a Moleskine é uma marca tudo de bom de cadernos, agendas etc – super sonho de consumo para quem gosta de papelaria, como esta que vos escreve. No Brasil, os preços são absurdamente caros. Nos Estados Unidos, nem tanto.

Obs 2: Aos poucos mando, por aqui, notícias da vida em Davis, Califórnia. :)