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O estranho mundo de Glória Perez

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Nasci e fui criada em um país onde a maioria é esperta. Se você é pontual porque não gosta de esperar nem de deixar ninguém esperando, é neurótica por horários. Se segue corretamente um fila, se espera o sinal ficar vermelho para atravessar uma rua, dá passagem para as pessoas, é minimamente gentil e honesta, você é idiota. Sim meus queridos leitores, é triste, mas é verdade. A sociedade brasileira segue essa regra sem regra de ter um “jeitinho” para levar a vida e é assim que é. Otário quem é diferente. Sou otária. Sofro com os julgamentos mas até tenho orgulho de ser certinha na maioria das vezes.

Muitos dizem que novelas são reflexos da sociedade. Outros dizem até que elas ajudam a moldar certos aspectos do dia a dia das pessoas. Concordo com um pouco de cada. Por isso escreverei sobre o absurdo do final de Salve Jorge.

A história foi ruim do início até o capítulo derradeiro. E nem sou daquelas que reclama de pequenos detalhes. Defendo a licença poética e não critico o fato de todas as pessoas na Turquia falarem português mas, quando a mocinha em apuros foge do cativeiro, não consegue ser compreendida por ninguém na rua, já que não sabe uma palavra de turco. Não, isso não me incomoda.

Há muito Glória Perez “esqueceu” como fazer bons galãs, por exemplo. Que o diga Márcio Garcia, que perdeu o posto de protagonista para Rodrigo Lombardi quando os dois frequentavam a Índia. Pois esse mesmo Lombardi, que seria o macho-alfa na conexão Rio de Janeiro-Capadócia, o tal “cara” tão irritantemente e bregamente cantado na música de Roberto Carlos, foi um dos piores personagens que já vi.

Ele era machista; julgava, proibia, gritava, brigava e dava pití quando contrariado pela namorada. Terminava relacionamentos das formas mais patéticas e não respeitosas e agarrava qualquer uma que usasse saia – ou farda – e que passasse na sua frente. Além de mexer psicologicamente com a cabeça de uma criança pequena ao pedir que o garotinho o chamasse de “pai” após poucos dias de namoro com a mãe solteira.

Bom, só isso já demonstra a estranha inversão de valores da autora. Eu entendo a tentativa de humanizar personagens, de mostrar que ninguém é totalmente bom nem totalmente mau mas, convenhamos, a exaltação das defeitos que não foram punidos ao longo da trama me deixaram assustada.

Como assim Paloma, não foram punidos? A gangue do tráfico foi toda para a cadeia. Pois é, mas esses não foram os únicos que fizeram coisa errada. Pelo visto, para a autora, você só merece castigo se traficar gente, vender bebês e matar umas pessoas por aí. Para fazer isso realmente tem que ser bandidão.

Mas e os crimes menores, que qualquer um pode fazer? Que tipo de exemplo é dado para o telespectador quando Berna (Zezé Polessa), a perua rica, turca e estéril, sai de um hospital carregando um bebê roubado na bolsa, nega qualquer tipo de culpa até o último episódio e o máximo que acontece a ela é a separação do marido (que no fim até ficou meio no ar se continuariam separados ou não)?

Ou o que dizer do casal de marginais Drica (Mariana Rios) e Pepeu (Ivan Mendes)? Ele atropelou um homem no início da novela e não prestou socorro. O sogro-advogado-rico deu um jeitinho e a sogra delegada reclamou, reclamou, reclamou mas nada fez. Quer dizer, eles fizeram: deram de presente para a dupla uma vida boa na Turquia. Lá, os dois mentiram, fizeram trambiques, esconderam o passaporte e não pagaram o salário da empregada e o que aconteceu? Nada.

De volta ao Brasil, a cereja do bolo: Drica e Pepeu resolveram traficar drogas. A mãe descobriu. O pai também. E aí? Nada. No fim da novela, eles terminaram grávidos. Grande bênção para os irresponsáveis com costas quentes que nunca aprenderam nenhuma lição sobre o certo e o errado da vida. Esses para mim foram os exemplos mais explicitamente graves, mas não foram os únicos.

E para finalizar eis uma questão que até hoje me confunde: eu estou maluca ou simplesmente ignoraram o fato de que Pescoço (Nando Cunha), o típico malandro oportunista que vivia às custas da mulher, fez uma ligação longa para a vilã Lívia Marine (Cláudia Raia) com quem ele nunca teve nenhum tipo de relação ao longo de toda a novela e que poderia implicá-lo no sequestro de bebês?

Pois é minha gente, o esquema é fazer pequenos delitos por aí – nada que chegue a ser configurado como tráfico de pessoas ou assassinato – que  assim vocês se darão bem na vida. Conselhos de dona Glória que, aqui entre nós, deveria se aposentar o quanto antes.

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Update para não ser acusada de ser injusta com Glória Perez: acabei de receber os devidos esclarecimentos sobre o caso. Na verdade não foi Pescoço, e sim a outra super malvada Wanda (Totia Meireles) quem ligou para Lívia Marine. Parece que os dois estiveram na mesma delegacia e ela pediu o celular dele emprestado pois estava sem bateria. Mas pô, podiam ter dado uma recapitulada para os que não lembravam mais disso, né? hehehe

Obrigada, Manuel Salvado! Que bom que você é noveleiro! :)

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