O tempo de cada um

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Ilustração: Gustavo Athayde

Roteiro: eu

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Novela na certidão de nascimento

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Dina Sfat, a “Paloma inspiradora”

Eu sou Paloma porque entre agosto de 1979 e fevereiro de 1980, minha mãe acompanhava uma novela na TV Globo chamada Os Gigantes, de Lauro César Muniz.

Pois a mocinha, vivda por Dina Sfat, se chamava Paloma (e era jornalista!!!). Minha mãe gostou do nome e decidiu que, quando tivesse uma filha, seria Paloma. Meu pai estranhamente concordou em algo com ela e assim fui registrada, lá em 1981.

Engraçado que a primeira vez em que ouvi falar dessa personagem, sem ser através dos meus pais, foi em Feliz Ano Velho, clássico livro de Marcelo Rubens Paiva . E ele falava mal. Dizia que ela era chatíssima mas que tinha que acompanhar a trama pela falta do que fazer enquanto estava no hospital, após o grave acidente que sofreu.

Depois dessa Paloma, a próxima que lembro de ter visto na teledramaturgia com papel de destaque foi Cristiana Oliveira em De Corpo e Alma, exibida entre 1992 e 1993. Sofri bastante porque era só dizer meu nome que tinha que ouvir alguma gracinha do tipo “e o coração Paloma, tá bem?”. Sim, a história tratava de transplante.

E eis que agora Walcyr Carrasco escolheu meu nome para colocar na protagonista sofredora de sua mais recente história, Amor à Vida. Paola Oliveira já passou e ainda passará por maus bocados nas mãos do irmão super malvado (muito amor para Mateus Solano) e do ex-namorado hippie-sujo.

É dramalhão. Nada de mais até o momento. Ontem até vi uma cena que me lembrou o seriado Grey’s Anatomy (que abandonei há algumas temporadas, confesso) onde toda a pegação acontece no elevador do hospital onde a maioria dos personagens trabalha. Bom, os seriados médicos como Grey’s e E.R sempre fizeram sucesso. Será que Carrasco é fã?

Em todo o caso a protagonista da novela me fará um grande fazer enquanto estiver no ar: me poupará o trabalho de repetir meu nome diversas vezes para quem nunca me viu na vida e sem ter que ouvir de volta “Paola”? “Paula”? “Pamela”? “Patrícia”?

A "nova" Paloma e o hippie
A “nova” Paloma e o hippie

“Silvestres” ou quando comecei a escrever para tirinhas

Alice é casada com Gustavo. Em um belo dia de 2012 – acho que no meu aniversário – ela pediu que eu o ajudasse com os “Silvestres”, animais “selvagens” que viviam na floresta e estavam hibernando há muito tempo por falta de idéias.

Eu, que já andava em crise – desde sempre – com a minha escrita, principalmente a de textos longos e ficcionais, achei que seria um exercício muito interessante escrever para um tipo de formato totalmente novo para mim.

Pois bem, algum tempo depois conversei com o marido/designer/ilustrador sobre os personagens, em especial sobre o urso protagonista, e desenvolvi os primeiros roteiros.

Gustavo então colocou tudo no papel. Eis o primeiro de uma série que deve aparecer por aqui e ali toda semana.

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Roteiro: eu

Ilustração: Gustavo Athayde

O estranho mundo de Glória Perez

Logo+Salve+Jorge

Nasci e fui criada em um país onde a maioria é esperta. Se você é pontual porque não gosta de esperar nem de deixar ninguém esperando, é neurótica por horários. Se segue corretamente um fila, se espera o sinal ficar vermelho para atravessar uma rua, dá passagem para as pessoas, é minimamente gentil e honesta, você é idiota. Sim meus queridos leitores, é triste, mas é verdade. A sociedade brasileira segue essa regra sem regra de ter um “jeitinho” para levar a vida e é assim que é. Otário quem é diferente. Sou otária. Sofro com os julgamentos mas até tenho orgulho de ser certinha na maioria das vezes.

Muitos dizem que novelas são reflexos da sociedade. Outros dizem até que elas ajudam a moldar certos aspectos do dia a dia das pessoas. Concordo com um pouco de cada. Por isso escreverei sobre o absurdo do final de Salve Jorge.

A história foi ruim do início até o capítulo derradeiro. E nem sou daquelas que reclama de pequenos detalhes. Defendo a licença poética e não critico o fato de todas as pessoas na Turquia falarem português mas, quando a mocinha em apuros foge do cativeiro, não consegue ser compreendida por ninguém na rua, já que não sabe uma palavra de turco. Não, isso não me incomoda.

Há muito Glória Perez “esqueceu” como fazer bons galãs, por exemplo. Que o diga Márcio Garcia, que perdeu o posto de protagonista para Rodrigo Lombardi quando os dois frequentavam a Índia. Pois esse mesmo Lombardi, que seria o macho-alfa na conexão Rio de Janeiro-Capadócia, o tal “cara” tão irritantemente e bregamente cantado na música de Roberto Carlos, foi um dos piores personagens que já vi.

Ele era machista; julgava, proibia, gritava, brigava e dava pití quando contrariado pela namorada. Terminava relacionamentos das formas mais patéticas e não respeitosas e agarrava qualquer uma que usasse saia – ou farda – e que passasse na sua frente. Além de mexer psicologicamente com a cabeça de uma criança pequena ao pedir que o garotinho o chamasse de “pai” após poucos dias de namoro com a mãe solteira.

Bom, só isso já demonstra a estranha inversão de valores da autora. Eu entendo a tentativa de humanizar personagens, de mostrar que ninguém é totalmente bom nem totalmente mau mas, convenhamos, a exaltação das defeitos que não foram punidos ao longo da trama me deixaram assustada.

Como assim Paloma, não foram punidos? A gangue do tráfico foi toda para a cadeia. Pois é, mas esses não foram os únicos que fizeram coisa errada. Pelo visto, para a autora, você só merece castigo se traficar gente, vender bebês e matar umas pessoas por aí. Para fazer isso realmente tem que ser bandidão.

Mas e os crimes menores, que qualquer um pode fazer? Que tipo de exemplo é dado para o telespectador quando Berna (Zezé Polessa), a perua rica, turca e estéril, sai de um hospital carregando um bebê roubado na bolsa, nega qualquer tipo de culpa até o último episódio e o máximo que acontece a ela é a separação do marido (que no fim até ficou meio no ar se continuariam separados ou não)?

Ou o que dizer do casal de marginais Drica (Mariana Rios) e Pepeu (Ivan Mendes)? Ele atropelou um homem no início da novela e não prestou socorro. O sogro-advogado-rico deu um jeitinho e a sogra delegada reclamou, reclamou, reclamou mas nada fez. Quer dizer, eles fizeram: deram de presente para a dupla uma vida boa na Turquia. Lá, os dois mentiram, fizeram trambiques, esconderam o passaporte e não pagaram o salário da empregada e o que aconteceu? Nada.

De volta ao Brasil, a cereja do bolo: Drica e Pepeu resolveram traficar drogas. A mãe descobriu. O pai também. E aí? Nada. No fim da novela, eles terminaram grávidos. Grande bênção para os irresponsáveis com costas quentes que nunca aprenderam nenhuma lição sobre o certo e o errado da vida. Esses para mim foram os exemplos mais explicitamente graves, mas não foram os únicos.

E para finalizar eis uma questão que até hoje me confunde: eu estou maluca ou simplesmente ignoraram o fato de que Pescoço (Nando Cunha), o típico malandro oportunista que vivia às custas da mulher, fez uma ligação longa para a vilã Lívia Marine (Cláudia Raia) com quem ele nunca teve nenhum tipo de relação ao longo de toda a novela e que poderia implicá-lo no sequestro de bebês?

Pois é minha gente, o esquema é fazer pequenos delitos por aí – nada que chegue a ser configurado como tráfico de pessoas ou assassinato – que  assim vocês se darão bem na vida. Conselhos de dona Glória que, aqui entre nós, deveria se aposentar o quanto antes.

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Update para não ser acusada de ser injusta com Glória Perez: acabei de receber os devidos esclarecimentos sobre o caso. Na verdade não foi Pescoço, e sim a outra super malvada Wanda (Totia Meireles) quem ligou para Lívia Marine. Parece que os dois estiveram na mesma delegacia e ela pediu o celular dele emprestado pois estava sem bateria. Mas pô, podiam ter dado uma recapitulada para os que não lembravam mais disso, né? hehehe

Obrigada, Manuel Salvado! Que bom que você é noveleiro! :)

Será que a TV acaba?

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Muito se tem dito sobre o fim do jornal impresso por conta do avanço dos meios digitais de notícias. Sobre isso eu acho que é apenas uma questão de tempo – pouco – e que realmente o papel está com seus dias contados, pelo menos no formato diário.

E agora o Netflix me fez pensar sobre as mudanças que o online pode provocar nas TV’s. Engraçado que, apesar da disponibilidade de vídeos em plataformas como o YouTube ou a facilidade de baixar no conforto do seu lar qualquer tipo de produção que se queira assistir a qualquer hora – ops, ainda é ilegal? -, a característica super popular da televisão nunca me fez questionar seu lugar nesses tempos modernos.

Porque, aqui entre nós, o público que compra jornal impresso e que gosta daquele ritual de ler de cabo a rabo está envelhecendo… os que vão ficando – sim, vivos – preferem ler notícias em seus computadores, tablets, celulares etc (e aí entra outra discussão sobre o tamanho e a qualidade do que passa a ser consumido, mas fica para outro post).

Mas a TV aberta ainda me parece ter grande alcance e força nas casas da maioria da população brasileira. É a principal distração depois de um longo dia de trabalho, é a principal companhia nos finais de semana. Ainda acho que aqueles que se interessam pelo que os canais a cabo oferecem ou que gostam de “adquirir de formas ilícitas” certos programas, ainda são uma pequena parcela que não oferece tanto risco assim no sentido de perda de audiência, falência, demissões ou fechamentos, como tem acontecido frequentemente em vários jornais impressos por aí.

Após toda essa minha divagação especulativa explico porque comecei a pensar nisso: House of Cards, do Netflix. Netflix é uma serviço que eu considero fantástico. Conheci quando morei nos Estados Unidos e pouco tempo depois parte dele veio para o Brasil. Parte? É.

Para quem não conhece, o Netflix é um tipo de locadora online só que ainda mais legal. Você paga um valor baratinho todo mês (R$ 16,90) e tem acesso a várias opções de filmes, seriados e documentários prontos para serem assistidos em streaming, o que significa que você não precisa baixar nenhum arquivo no seu computador, basta apertar o play e ter uma conexão de internet boa para evitar interrupções nos melhores momentos. Nos Estados Unidos existe a opção de pedir filmes pelo correio, serviço que lá funciona muito bem. Aqui, veio só a parte online mesmo mas que, pelo valor e as opções disponibilizadas, vale a pena.

Pois o NetFlix, que é conhecido como um sistema de “TV por internet” começou a produzir seriados próprios. Foram três até o momento. Em 2011 foi lançado o primeiro: uma comédia chamada Lilyhammer. Mas o sucesso absoluto veio em fevereiro de 2013 quando o site disponibilizou todos os 13 episódios de House of Cards, drama sobre os bastidores da política nos Estados Unidos dirigido por David Fincher (diretor de Seven, Clube da Luta, A Rede Social, Os Homens que Não Amavam as Mulheres etc) e estrelado por Kevin Spacey (de Beleza Americana e Os Suspeitos). A série, que tem uma absurda qualidade de texto e elenco, é um remake de outra com o mesmo nome, exibida pela BBC em 1990. As duas foram baseados no livro de Michael Dobbs.

Um dos principais diferenciais dessas produções do Netflix é a possibilidade para o telespectador (esse termo pode ser usado para web TV?) de assistir tudo de uma só vez e não precisar esperar uma semana inteira pelo próximo episódio – ou semanas, já que algumas emissoras nos Estados Unidos fazem pausas no meio das temporadas.

Eu vi todos os de House of Cards em praticamente dois dias. O que é bom e ruim. Bom porque você devora aquela história sem ter que esperar muito por seu desenrolar como citei acima; ruim porque acaba logo e você terá que esperar pela próxima temporada. Ou se entreter com outras opções: quando terminei a série política parti para a mais recente produção da empresa: Hemlock Grove, série de terror meio adolescente freak que tem o dedo – produção executiva – de Eli Roth (o amigo de Tarantino que atuou em Bastardos Inglórios e dirigiu O Albergue). Essa achei tosca, tanto que estou levando bem mais tempo para acabar a temporada.

No fim das contas, ainda acho que esse tipo de entretenimento audiovisual consegue ser bem segmentado e atingir de forma eficiente seus públicos-alvo: os que gostam de novelas, de jornal, de aprender receitas pela manhã, de filmes, seriados, programas de viagem etc. E, aqui entre nós, apesar do diploma que tenho guardado em algum lugar e da redução de opções de trabalho, ficaria muito mais triste se a TV chegasse ao fim do que o jornal impresso. Pronto, falei.

Se você não conhecia o Netflix recomendo o serviço (e nem recebo jabá pra isso). Se conhece e tem, corra para assistir as armações de Kevin Underwood em Washington que vale muito a pena. Série das boas.