Tudo o que é bom dura nada

LadoLado

Um dos meus sonhos de consumo nos últimos meses foi virar melhor amiga de Laura e Isabel. Há muito tempo na TV eu não me deparava com personagens tão incríveis como as interpretadas de forma impecável por Camila Pitanga e Marjorie Estiano (que viraram minha atrizes preferidas, junto com Cláudia Abreu, do staff global). E fiquei órfã, no último fim de semana, de Lado a Lado.

Sempre gostei muito de Gilberto Braga afinal ele escreveu Vale Tudo, Força de um Desejo (minha preferida de época até agora), Celebridades e Paraíso Tropical, só para citar algumas. E o melhor de tudo: em suas tramas existe sempre um grande “toma lá dá cá” que torna tudo mais interessante e menos arrastado, como acontece com outros autores (nem preciso ir longe para achar um exemplo: Salve Jorge de Glória Perez dá voltas, voltas e mais voltas para, finalmente, acontecer algo minimamente interessante). Explico: normalmente, nas novelas do autor, os malvados-super-malvados fazem suas maldades mas os mocinhos não são nada bobos e revidam sempre que podem. Não é aquele sofrimento extremo e infindável até o último capítulo. Isso traz agilidade e, pelo menos em mim, provoca empatia por bons que também são fortes, espertos e inteligentes.

Em Lado a Lado era assim. A trama que ocupou o horário das 18h na TV Globo foi escrita por Claudia Lage e João Ximenes Braga, com supervisão de texto de Braga. E foi linda desde o seu início. Sim, eu ignoro as críticas sobre alguns deslizes históricos ou a linguagem “moderna” usada pelos personagens no início do século XX. Sinceramente, é novela, com capítulos diários e não dá para exigir perfeição nos mínimos detalhes. Mas a forma como foram tratadas questões como preconceito contra mulheres, negros, contra a capoeira e o candomblé foi especialmente interessante. Assim como o uso da trilha sonora, não apenas com canções de época (Sofia Copolla e sua Maria Antonieta provaram que essa é uma receita que pode dar muito certo) tirava muitas cenas da obviedade. E o melhor de tudo: TODOS os personagens, de TODOS os núcleos, eram muito bons, incluindo mocinhos e bandidos.

O fato de existirem duas grandes protagonistas femininas (como aconteceu na minha querida Cheias de Charme com o trio de empreguetes) deu um toque especial para a trama. Porque elas eram lindas, inteligentes, passionais, sofredoras, espertas, faziam besteiras e o público chorar ou vibrar com cada coisa que acontecia em suas tumultuadas vidas, sempre amparadas pelos amores (lindamente interpretados por Lázaro Ramos e Thiago Fragoso) e amigos.

isabem-samba-com-ze

E depois de ver espetaculares interpretações como por exemplo Patrícia Pillar e sua Constância, gelidamente aristocrática e cruelmente insana, eis que nos deparamos com Flor do Caribe. Pelo primeiro episódio já foi possível perceber, claramente, a quantidade de clichês e interpretações pouco interessantes que vem por aí.

Grazi Massafera, extremamente magra e com uma atuação sofrível não possui a menor química com Henri Castelli (que sei lá porque diabos ainda é usado como galã), e muito menos com o novato Igor Rickli, que faz caras e bocas de malvado para tentar obter alguma expressão e fala como se estivesse fazendo dublagem, com voz empostada – para mim, grande indicativo de limitações e desconforto com a atuação.

ester_alberto_cassiano

Pois os papéis já estão muito bem definidos: os mocinhos, os bandidas, o judeu sobrevivente do holocausto, o nazista rico que explora os trabalhadores, os pilotos “Top Gun”, a praia e os corpos sarados de fora (afinal, a novela é de Walter Negrão, autor de Tropicaliente).

E não sei bem se é culpa da Record que levou grande parte dos atores para suas produções deixando a Globo com uma certa limitação no seu quadro de funcionários ou se resolveram apostar no grande sucesso de Avenida Brasil para trazer audiência mas é possível encontrar várias atores que saíram direto do Divino e foram parar nas areias do Rio Grande do Norte, sendo que praticamente não existiu tempo para “descansar” suas imagens. Pois bem, que venha o sol, o bronzeado, os olhos azuis e a sofrível substituição de um produto audiovisual muito bom por outro que não passa de mais do mesmo. Pena.

Ah, e claro, só para que a dor no coração com a comparação apareça logo no início, o incrível samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense – campeã do carnaval carioca em 1989 – exaltando a liberdade na abertura de Lado a Lado foi substituído por “Maria Gadu-Shimbalaiê” e uma de suas músicas praianas (e nem é Manoel Carlos em Búzios). Clichê. Preciso dizer mais?

Anúncios