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Acredito que a única coisa boa que existe em certos absurdos é a movimentação que acontece contra eles. E esse movimento de grande poder nas mãos de pastores evangélicos que surgiu nos últimos anos no país faz até com que se perceba manifestações interessantes de onde nunca se esperaria grande coisa.

Já explico o meu ponto de vista, mas antes quero deixar uma coisa clara: quer ter sua religião, acreditar em algo, faça isso na sua igreja, templo, dentro da sua casa ou em lugares em que você esteja com quem compartilha da mesma crença que você. Acho  assustador que partidos políticos e meios de comunicação estejam nas mãos de quem claramente ataca quem não é seu igual e que prega o retrocesso do mínimo de avanços sociais que esse país pode ter tido até agora.

Pois bem, ontem li uma nota que dizia que a TV Record apresentou uma matéria com reclamações de um pastor sobre a minissérie O Canto da Sereia, exibida na TV Globo (que infelizmente não consegui assistir). O tal pastor reclamava da “propaganda” feita para as religiões afrobrasileiras, e que manifestações evangélicas deveriam ter espaço na emissora também. Aí eu me pergunto: a TV de Edir Macedo que, além de cultos, produz e exibe várias séries de histórias bíblicas, vai abrir espaço para o candomblé? É tão absurdo, mas tão absurdo que dá vontade de rir para não chorar. Lembro que no início de Salve Jorge também surgiu um burburinho de que nenhum evangélico deveria acompanhar a novela por fazer apologia a São Jorge.

E aí, ainda ontem, assistindo ao capítulo de Lado a Lado, minha novela preferida nesse momento, me deparo com uma bela demonstração pró-religiões africanas (que acho que só existiu por causa da Record). A personagem de Camila Pitanga conversa com a amiga (Marjorie Estiano) sobre algo que sua Tia Jurema viu nos búzios. Tia Jurema é uma das figuras mais simpáticas e corretas da trama. É mãe de santo e dona da casa onde acontecem as melhores festas no morro. Não me lembro literalmente das falas para citar aqui mas, a idéia principal, muito simples, era apenas de que aquela pode não ser a sua religião, mas deve sim existir muito respeito pelo que o outro acredita. E ponto final.

Sei que faz parte de um contexto histórico colocar uma religião africana em meio aos negros – que já não são mais escravos – no início do século 20, mas também acho que existe um grande peso em dar aquela alfinetada na concorrente, mostrando que a “poderosa TV brasileira” não se intimida, faz o que quer, sem medo de processos e retaliações, e apóia quem quer. Sempre foi assim, mas nesse período de tantos preconceitos – já que infelizmente o beijo gay ainda é um grande tabu -, que pelo menos o direito de escolher para quem rezar e não precisar impor nada para ninguém seja exaltado.

É e muito natural que na teledramaturgia sejam retratadas religiões, afinal, teoricamente, as novelas são um reflexo social da época em que são exibidas. E consigo me lembrar de judeus, evangélicos e católicos mostrados em diferentes situações nas novelas globais que, assumo aqui, são as que mais assisti durante toda a vida. O problema é usar algo de tão sagrado para alguns com o objetivo de  manipular e despertar o ódio em muitos. E isso, sabemos que todas as emissoras são capazes de fazer.

Sei que muita gente pode achar meu texto preconceituoso e preciso confessar que sim, eu tenho muito preconceito contra quem tem preconceito. Desculpem mas não consigo ser um ser humano tão evoluído assim para “dar a outra face”. E se alguém ficou curioso, não, não tenho religião nenhuma.

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