Publicado em Turismo

Pizzarelli e o que há de bom na cidade

Um clichê super verdadeiro sobre São Paulo diz respeito à imensa quantidade de opções culturais que existem por aqui. É uma verdade que faz com que morar na cidade valha muito a pena. E o melhor de tudo é que, como existem muitas opções de lugares e atrações, é possível ver muita coisa boa sem precisar gastar rios de dinheiro.

 Por representar tudo isso que acabei de falar, declaro publicamente meu amor ao Sesc. Acho um projeto simplesmente sensacional e que funciona muito bem. São unidades espalhadas em vários bairros da cidade, não somente nos mais centrais ou de “gente diferenciada”.  Os ingressos são vendidos a preços populares de verdade – se você tiver a carteirinha de comerciário paga a meia da meia entrada – e é possível comprar para qualquer evento em qualquer uma dessas unidades, já que o sistema integrado deles funciona bem.

Existem opções de show musicais, peças de teatro, exposições, cursos, atividades esportivas… é massa.  Um dos meus lugares preferidos em São Paulo é o Sesc Pompéia. Foi lá que vi a exposição de Sophie Calle – Cuide de Você -, show de Yael Naim, Liniers com Kevin Johansen + The Nada e mais recentemente o de John Pizzarelli, só para citar alguns exemplos.

Para mim, que além de ser preguiçosa também não gosto de sair durante a noite, os shows do Sesc sempre foram uma opção sensacional porque começam cedo e, consequentemente, terminam cedo. Para quem gosta de cair na farra, é bom também porque dá tempo de continuar a noitada em outros lugares. E mais: das unidades que conheci, só comi – por enquanto – no Pompéia, e posso dizer que a comida é boa e barata de um jeito que você mal encontra nos botecos sujos perdidos por aí. As bebidas também, tão baratinhas que às vezes fica até difícil de controlar os pulinhos animados ao pedir aquela caipiroska delícia por menos de dez reais.

Por isso um conselho para os amigos que moram na cidade: sempre que vocês puderem, dêem uma olhadinha na programação no site. Nunca paguei mais que 20 reais em nenhum show. E para os amigos que são de fora: sempre que vierem passear pelos lados de cá, vale muito olhar a programação e conhecer pelo menos um das unidades. É garantia de programa bom, bonito e barato.

E para reafirmar minha boa impressão, sempre seguida de uma boa sensação, no último fim de semana estive no projeto Jazz na Fábrica, que promove shows com músicos de todo o mundo. Pois eu não conhecia John Pizzarrelli até que minha querida Karin me ofereceu um ingresso para a apresentação na noite de domingo. Eu, fã apaixonada de Jazz (que deveria tomar vergonha na cara e ouvir mais, pesquisar mais, ter mais CD’s), fui junto.

O Sr. Pizzarelli é uma figura de New Jersey, que tinha ares e figurino de um dos Sopranos. Simpático, arranhava umas palavras em português e, além de cantar músicas de Tom Jobim, fez a melhor imitação de João Gilberto que já vi na vida. Acompanhado por um trio de músicos, incluindo seu irmão caçula no contra-baixo, tocou belíssimas canções de grandes nomes dos Estados Unidos como George Gershwin, Johnny Mercer, Sammy Cahn e Nat King Cole, com pitadas de Tom Waitts, Joni Mitchell, Beatles e bossa nova.

Foi mais uma deliciosa noite no Sesc com músicas que davam vontade de dançar ou apenas de escutar, com os olhinhos fechados, respirando romance e alegria.

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Publicado em Pensamentos

Onde São Paulo vai parar?

A TV Folha publicou o seguinte vídeo:

Continuo assustada com a possibilidade de Celso Russomanno virar prefeito da maior e mais rica cidade do Brasil. Assim como, e diria que além do pavor, sinto uma revolta imensa quando encontro essas demonstrações de conservadorismo que, no dia a dia, aparecem claramente em discursos da classe média paulistana.

É gente que não assume a veia racista e reacionária mas que não aceita que um metrô leve “gente diferenciada” para seu bairro, que acha feio ver dois homens se beijando no meio da rua, que acredita que mulheres que usam saia curta merecem agressões sexuais ou que acha engraçado – e justifica com o bom e velho “mas não é por mal, é maneira de falar” – usar “baiano” como xingamento. E por aí vai..

O mais assustador é que isso acontece na cidade que reúne mais gente de todos os lugares, não só do país mas também do mundo. Que reúne grandes empresas, grandes empreendimentos, grandes possibilidades. Onde existe uma vida cultural intensa. A mais importante universidade do país. Onde o bom exemplo de cidadania e respeito deveria ser dado.

Mas talvez exatamente por ter muito de tudo, a cidade não consegue lidar com tanto e apresente reações agressivas a quem não é seu filho natural, dentro dos padrões de normalidade e bons costumes estabelecidos provavelmente em algum século passado.

São Paulo tem tanto potencial para ser melhor do que isso. Espero que a eleição não prove o contrário.

Publicado em Cinema

Não é divino nem maravilhoso

Se você espera descobrir de uma forma simples, direta e didática o que foi o tropicalismo e acredita que assistir ao documentário de Marcelo Machado pode ajudar, vim aqui para te dar um conselho: é mais eficiente dar uma lida na Wikipédia.

Tropicália é um documentário preguiçoso. E digo isso não pela imensa pequisa de imagens de arquivos tanto estrangeiros quanto brasileiros que apresentam cenas maravilhosas do que aconteceu naqueles anos. Acredito que encontrar, juntar, restaurar e editar tudo tenha dado um trabalho imenso. O problema está no que foi feito com esse belo material.

Toda a estrutura narrativa do filme parece baseada no que foi encontrado nessas imagens. Sendo assim, ficou a sensação de que as opiniões dos ilustres convidados como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Arnaldo Baptista e Tom Zé também se limitaram ao que lhes foi mostrado nas tais imagens (apesar de não ter ficado explícito que isso foi feito com todos os entrevistados). E aí, o resultado é a construção confusa sobre um movimento de gente confusa.  Mas a história vai muito além disso.

No fim das contas, para quem não tem a menor ideia de como aconteceu o tropicalismo, o filme não acrescenta nada além de boa música – e sim, é muito prazeroso assistir e escutar os momentos de trilha sonora com espetaculares exemplos de talento e criatividade daqueles músicos. Mas, fora isso, é como se os convidados não tivessem sido bem explorados, como se não existisse um roteiro organizado, como se tudo fosse jogado ali de qualquer jeito sem a menor preocupação de continuidade.

Logo no início Caetano fala de Maria Bethânia como uma das precursoras do movimento mas que era individualista demais para se juntar ao grupo. E pára por aí. Se eu não tivesse assistido ao documentário Música é Perfume sobre a cantora e não soubesse que sua estreia nos palcos foi interpretando a música Carcará em um show chamado Opinião que envolvia protestos políticos e sociais e foi muito importante na época, as imagens que representam esse momento na história não fariam o menor sentido.

Assim como Jorge Ben é citado por ter participado quando teve uma música gravada pelos Mutantes mas não apareceu falando absolutamente nada sobre o tema. O que talvez tenha sido menos pior que Rita Lee, que teve sua imagem explorada na maioria do tempo e que aparece em apenas um momento, com uma fala.

Por isso fica a sensação de que não existiu um bom condutor de entrevistas que pudesse arrancar histórias bacanas e depoimentos importantes sobre o que foi aquele extraordinário movimento de vanguarda da música e da cultura no Brasil em uma época de Ditadura Militar. Faltou conversa. Faltou prosa para muita poesia. Mas pelo menos tem muita música.

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A justificativa da justificativa

Marta Suplicy em foto de José Cruz/Abr

 

E foi assim: Marta ficou “tristinha” porque não foi a candidata escolhida pelo partido para concorrer à prefeitura de São Paulo em 2012. Até que conversou com Dilma, a presidenta. Acalmou e um tempo depois estava participando de passeios com o escolhido, Haddad, acenando, mandando beijinhos e tirando fotos pela Zona Leste.

Até que descobrimos o motivo e tanta simpatia e colaboração: Ana de Hollanda, a irmã de Chico, que fez muitos inimigos enquanto Ministra da Cultura foi demitida. E aí, qual foi a indicação da presidenta para ocupar o cargo? Quem? Quem? Mamãe Supla.

E pela primeira vez na vida esta que vos fala, que nunca entendeu absolutamente nada do assunto, percebeu o processo de uma jogada política. Superficialmente, claro, porque tenho a certeza que muitas outras combinações foram feitas para que isso acontecesse.

O que sei, de forma tristemente cética, é que é assim que funciona. Assim como Russomanno fez pacto com Edir Macedo. Lula com Maluf. E Serra, bem, Serra nem precisa fazer pacto com nenhum demônio para ter toda a minha antipatia. Isso só em São Paulo. Em Salvador temos ACM Neto (a.k.a Grampinho), Pelegrino (mais queimado que bomba de São João por conta do terrível governo petista de Jaques Wagner) e Mário Kértesz, que está na mesma categoria de Serra.

E eu, que muitas vezes respirei aliviada por não termos Republicanos nessa América de baixo – apesar de ter medo do que uma possível vitória na presidência da América de cima possa trazer de desgraças para o mundo – me vejo com a sensação de que tudo não passa de um jogo do qual nunca compreendi quais eram as regras.

Publicado em Pensamentos

Conversa no ponto de ônibus

 

Apesar dos fones de ouvido e música alta – engana-se quem acha que isso espanta os que adoram “puxar conversa” com estranhos – um senhor, aparentando ter uns 80 anos, sentou ao meu lado.

Olhei rapidamente em sua direção e percebi que os lábios se moviam. Tirei os fones e a conversa começou:

Ele: …agens nos dois braços é?

Eu, com sorriso amarelo, já imaginado do que se tratava: pois é..

Ele: o que tem escrito ali?

Eu: salvador. bahia. brasil.

Ele: você é baiana?

Eu: sou..

Ele: de onde?

Eu: Salvador mesmo.

Ele: ahh, da capital! Eu sou de Senhor do Bonfim, ali, pros lados de Feira, sabe?

Eu: sei sim, nunca fui, mas sei.. então o senhor é conterrân.. (fui interrompida)

Ele: eu tenho tatuagens também – e começou a levantar a manga da camisa comprida todo orgulhoso – tenho essa aqui de amor verdadeiro, mais essa aqui – levantando a barra da calça – e essa aqui também..

Eu, já achando a situação engraçada e com a certeza de que eram as tatuagens mais feias que já vi de perto, no melhor/pior estilo “feitas com caneta bic verde”, tentei ser simpática – olha só, que bacana!

Ele: é, tá vendo? Os baianos gostam de tatuagem.

Nesse exato instante o ônibus chegou e me despedi rapidamente com a certeza de que a cada dia em São Paulo aprendo algo novo sobre os baianos.